Cocriação, colaboração e geração de valor entre empresas e consumidores

engrenagemO vocabulário usado pelo mundo de negócios é repleto de termos que são usados sem grande preocupação com seus reais significados. Sinergia, encantamento do cliente, sustentabilidade e criação de valor para o acionista são alguns exemplos de expressões ubíquas. Neste artigo falaremos sobre a ideia de criação de valor; porém, mais especificamente de criação juntamente com usuários finais. Adicionalmente, discutiremos sobre o papel mais ativo de alguns consumidores no desenvolvimento de novos produtos.

Antes de discutir “criação de valor” é necessário entender o significado do conceito da expressão “valor”, haja vista que essa ideia talvez seja a mais mal definida e elusiva em gestão de negócios. Empresas utilizam tal conceito de várias formas, tais como as trocas entre custos e benefícios, as que lidam com experiências dos consumidores ou ainda as que destacam ganhos monetários.  O paradigma de competição tradicional (PORTER, 1980) descreve o papel unilateral por parte da empresa na criação de valor por que, nesse modelo, tanto a firma quanto o consumidor possuem papéis distintos na produção e no consumo. O mercado, definido como um agregado de consumidores, é um “alvo para as ofertas das empresas” (PRAHALAD; RAMASWAMY, 2004). Esse modelo, no qual uma empresa produz algo e os usuários ou clientes apenas consomem o que foi produzido, reflete a perspectiva antiga de criação de valor, que enfatiza a entrega de valor através de produtos tangíveis, ao passo que pesquisas mais recentes se baseiam na ideia de valor-em-uso, ou seja, a criação de valor ocorre apenas quando o usuário final consume do produto ou o serviço.

Enquanto a criação de valor é definida a partir do aumento do bem-estar do consumidor de tal modo que esse se beneficie em algum aspecto, a cocriação de valor amplia o valor de um produto ou serviço ao integrar diferentes recursos e diferentes atores. Ou seja, valor cocriado é o aquele resultado de processos nos quais vários agentes, sejam fornecedores, parceiros tecnológicos, universidades ou consumidores, participam na atividade de desenvolvimento do produto. Esses processos originam cocriação (“co-creation”) e facilitação de valor a partir do momento em que duas partes ativas interagem, sendo que uma delas, por definição, não deve estar dentro dos limites da organização.

A colaboração entre uma firma e seus consumidores é um tipo específico de cocriação, sendo definida pelo trabalho colaborativo entre consumidor e empresa. Nessa situação, o consumidor e a empresa se conectam (em vários graus) nas atividades de geração de ideias, desenvolvimento e criação de novos produtos. Prahalad e Ramaswamy são dois autores importantes na literatura de colaboração e explicam que a colaboração é uma forma específica da contribuição oriunda do usuário, que adota uma atitude ativa ao contribuir com conhecimento, opinião informada, experiência de uso/consumo, recursos, críticas e apoio à disseminação de informação junto ao processo de inovação das firmas.  Desse modo, a colaboração entre consumidores e firmas é um processo criativo e de interação social entre produtores e consumidores, facilitado pela empresa, no contexto de desenvolvimento de novos produtos ou serviços.

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É importante destacar as diferenças entre o modelo antigo e o modelo colaborativo de criação de valor. Enquanto no primeiro a premissa de criação de valor está associada aos produtos da firma (o que mostra uma lógica manufatureira), no segundo modelo o conceito de criação de valor está relacionado com a experiência do consumidor (o que mostra uma lógica voltada aos serviços). Adicionalmente, a própria ideia de valor possui diferenças marcantes entre os dois modelos; enquanto no primeiro caso quem cria valor é a firma, no segundo caso não existe quem cria valor por que ele é gerado pela interação entre consumidor e a firma. A Tabela 1 abaixo apresenta as diferenças entre o modelo tradicional e colaborativo de criação de valor.

Tabela 1 – Comparação entre modelo tradicional de criação de valor e modelo colaborativo; adaptado de Prahalad e Ramaswamy.

Modelo tradicional de criação de valor Modelo colaborativo firma-consumidor
Autores importantes: Porter Autores importantes: Prahalad
Valor é associado aos produtos desenvolvidos exclusivamente pela empresa Valor é associado com a experiência que os consumidores possuem
A firma define e cria valor para os consumidores Consumidores participam na cocriação de valor através de colaboração nas diversas fases de desenvolvimento de produtos
Lógica manufatureira Lógica de serviços
A firma acha um nicho de mercado de consumidores para servir Consumidores procuram e extraem valor de modo ativo
Valor é criado pela firma e oferecido aos consumidores Valor é cocriado simultaneamente pela firma e pelo consumidor, que atuam de forma colaborativa

 

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Papéis diferentes dos consumidores

Nambisan (2002), em seu influente artigo sobre os papéis dos consumidores finais nos processos de desenvolvimento de novos produtos, apresenta três possíveis perfis de atuação na colaboração consumidor-empresa: (i) recurso para ideação, (ii) cocriador para desenvolvimento e projeto e (iii) usuário-testador de soluções. O mesmo Nambisan expandiu sua própria tipologia em 2007 ao incluir um novo perfil de atuação de colaboração: o de suporte técnico ao produto. Desse modo, a colaboração entre a firma e o consumidor abrange não apenas o desenvolvimento de novos produtos, mas também inclui suporte ao produto (atividade de serviços), difusão de informação (atividade de marketing) e sugestão de melhorias de produtos (atividade que impacta a produção). Esta mudança expõe a ideia que a colaboração com consumidor pode ocorrer ao longo de várias etapas. A Tabela 2 apresenta os quatro perfis de consumidor-colaborador e os campos de atuação desses com as firmas.

Tabela 2 – papéis de consumidores cocriadores (Fonte: Nambisan e Nambisan 2007, adaptado pelo autor)
Etapa do desenvolvimento do produto Ideação Projeto e desenvolvimento Teste Serviço de suporte
Papel principal do consumidor Recurso na geração de ideias Cocriador e coprodutor Testador Usuário do produto
Resultados esperados pela atuação do consumidor Melhorias em produtos

Sugestões e ideias para novos produtos e/ou melhoria de produtos

Especificações para projetos de novos produtos Identificação de falhas em projetos

Inputs no desempenho dos protótipos

Serviços de suporte a outros consumidores

Disseminação de informações sobre produtos

Natureza dominante das interações do consumidor consumidor-consumidor e consumidor-empresa

 

Consumidor-empresa Consumidor-empresa consumidor-consumidor
Ferramentas típicas para as interações Fórum de discussões

Mensagens instantâneas

 

 

Base de conhecimento de produto

Fórum de discussões

Ferramentas para projetos desenvolvidos por usuários

Ferramentas para prototipagem virtual e jogos interativos

Fórum de discussões

Testes virtuais de conceitos

Simuladores virtuais

Fórum de discussões

Mensagens instantâneas

 

Base de conhecimento de produto

Nome do Perfil Gerador de Ideais Coprodutor Testador Disseminador de informações

Consumidores, no papel de colaboradores-criadores, tendem a ser mais comuns nas áreas de produtos industriais do que nas áreas de bens de consumo. Na indústria de jogos digitais, nas quais o segredo sobre propriedade intelectual e novos produtos é crítico, a colaboração só ocorre quando fornecedores adicionam conhecimento e ferramentas à lista de recursos disponíveis aos consumidores. Como consequência, em relação à indústria de jogos digitais, a colaboração entre consumidores e empresas ocorre muito mais frequentemente do que a coprodução.

Consumidores criam valor nas atividades de teste e suporte aos produtos, como por exemplo, na indústria de software na qual muitas empresas usam consumidores como “beta-testers”, reduzindo investimentos na testagem interna dos produtos. Adicionalmente, empresas podem obter entendimento valioso de como seus produtos irão desempenhar em uma variedade de contextos ao envolver uma gama diversa de usuários na testagem de produtos.

Resumo

Percebemos uma mudança de paradigma dado que tradicionalmente pensávamos que a criação de valor ocorria quando uma empresa fabricava um produto. Atualmente a criação de valor não ocorre unilateralmente porque é empresas utilizam seus consumidores no desenvolvimento de produtos. Além disso, reconhecemos que consumidores despenham papéis distintos e, desse modo, suas contribuições são distintas.

Impacto no planejamento estratégico das empresas

Do ponto de vista do planejamento estratégico, resta-nos identificar quais indústrias seguem a lógica manufatureira antiga e quais as que seguem a lógica colaborativa moderna. Por fim, outra pergunta importante para os estrategistas é: Quais indústrias conseguirão fazer a mudança para no novo paradigma de desenvolvimento de produtos?

Referências Bibliográficas

BILGRAM V., BREM, A, VOIGT KI. User-centric innovations in new product development—Systematic identification of lead users harnessing interactive and collaborative online-tools. International Journal of Innovation Management. Sep;12(03):419-58. 2008

CHANG, W.; TAYLOR, S.A. The Effectiveness of Customer Participation in New Product Development: A Meta-Analysis. Journal of Marketing Vol. 80, p; 47–64, January 2016

CHESBROUGH, H. Why Companies Should Have Open Business Models. MIT Sloan Management, Review, Winter, 2007

CHESBROUGH, H. The era of open innovation. Sloan Management review 44(4): 35–41. 2003.

CHESBROUGH, H., CROWTHER, A. K. Beyond high tech: early adopters of open innovation in other industries. R&D Management 36, 3, 2006

CHRISTENSEN, C. M. The innovator’s dilemma. Boston: Harvard Business School Press. 1997

HOLBROOK, M.B. The nature of customer value: an axiology of services in the consumption experience. Service quality: New directions in theory and practice. 1994; 21: p: 21-71.

NAMBISAN, S. Designing Virtual Customer Environments for new product development: Toward a Theory. Academy of Management Review Vol. 27, No. 3, 392-413, 2002.

NAMBISAN, S. BARON R.A. Interactions in virtual customer environments: Implications for product support and customer relationship management. Journal of interactive marketing. Mar 1;21 (2):42-62, 2007

NAMBISAN, S.; NAMBISAN, S., “How to profit from a better virtual customer environment”. MIT Sloan Management Review, Vol. 49 No. 3, pp. 53-61, 2008.

PAYNE, A., STORBACKA, K., FROW, P., “Managing the co-creation of value”, Journal of the Academy of Marketing Science 36:83–96. 2008

PORTER, M. E. Competitive Strategy: Techniques for Analyzing Industries and Competitors. New York: Free Press, 1980.

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PRAHALAD, C. K.; RAMASWAMY, V. The future of competition: co-creating unique value with customers.

Relatório sobre Multinacionais Brasileiras

Duas importantes instituições brasileiras, a USP e a FGV, publicaram há algumas semanas o relatório “Gestão estratégica das multinacionais brasileiras”, resultado de um projeto de pesquisa cujo objetivo é compreender como as empresas brasileiras estão conduzindo suas estratégias de internacionalização e expansão. Em relação à amostra pesquisada, 62 empresas responderam às entrevistas, sendo que 57% são do setor secundário, 38% do setor terciário e 5% do setor primário.

Como o enfoque do projeto é tanto prático quanto acadêmico, os autores dividiram as respostas segundo os principais fatores motivadores para internacionalização, que são: acesso a (novos) mercados; acesso a tecnologias e conhecimento; acesso a recursos visando maior efetividade e, por fim, proximidade de clientes, fornecedores e parceiros.

Análise dos resultados

A Figura 1, retirada do próprio relatório, apresenta os resultados para os fatores motivadores para a internacionalização.

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Fig 1: Fatores motivadores para a internacionalização Fonte: GINEBRA (2015)

Os resultados mostram que os dois grupos de fatores mais relevantes são o acesso a tecnologias e conhecimentos e o acesso a recursos visando a otimização de eciência. Por outro lado, a mesma pesquisa apresenta que o acesso a mercados e proximidade de clientes, fornecedores e parceiros são os motivadores menos relevantes para as empresas brasileiras.

A alta relevância do acesso a tecnologias reflete a visão das multinacionais brasileiras que reconhecem a defasagem que existe em relação às tecnologias mais avançadas e aos mercados mais dinâmicos. Os autores argumentam que o modo operacional para expansão internacional tem sido o de aquisições de empresas nos mercados mais desenvolvidos, como o objetivo de diminuir o gap tecnológico ao avançar em mercados mais demandantes.

No grupo dos fatores menos relevantes encontramos acesso a mercados e proximidade de clientes, fornecedores e parceiros. Os resultados mostram que há um baixo número de multinacionais brasileiras que vendem diretamente para os mercados nais; as firmas brasileiras são sobretudo fornecedores de insumos para diferentes indústrias. Deste modo, uma parte importante das multis brasileiras fazem parte de algum tipo de cadeia de produção global.

Multinacionais Brasileiras vs. Inovação

Para cerca de 40% das multinacionais brasileiras a inovação em custo e a inovação frugal é uma realidade da sua estratégia tecnológica. Este resultado é interessante pois outros relatórios indicam que inovação em processo costuma ser um ponto forte em empresas transnacionais brasileiras.

Estratégias de internacionalização

As estratégias competitivas mais encontrados são as de Consolidador Global e as de Parceiros Globais. Nestas duas categorias as empresas fazem parte de cadeias de produção de bens ou serviços; no caso de empresas brasileiras muitas vezes elas são fornecedores de insumos ou partes de produtos mais complexos. Este resultado é coerente com pesquisas anteriores dos próprios autores. A Tabela 1 abaixo apresenta a distribuição das multis brasileiras nas cinco categorias de multinacionais

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Tabela 1: Distribuição das empresas brasileiras em categorias de multinacionais

Os artigos “Cinco estratégias de internacionalização de multinacionais emergentes” e “Efeitos do País de Origem: impacto sobre as multinacionais de países emergentes” explicam cada uma das categorias apresentadas acima e o conceito de efeitos de países de origem e seus impactos em multinacionais brasileira.

Conclusões

O relatório apresentado é a terceira versão de um projeto de pesquisa iniciado em 2006. Desse modo, a fotografia apresentada pelo atual pesquisa permite concluir que ocorreram mudanças signicativas no conjunto das multinacionais brasileiras, a saber:

  1. Aumento do número de multinacionais brasileiras, nos três setores econômicos, com destaque para empresas do setor de serviços. Apesar do número total de multinacionais brasileiras ser ainda modesto quando comparado a outros países, sejam desenvolvidos ou emergentes, a expansão observada parece revelar que essa é uma estratégia cada vez mais aceita pelo empresário local.
  2. As decisões para internacionalização são individuais, com poucas ações de incentivo e de sustentação provenientes do governo local, diferentemente do que ocorre nos demais países emergentes.
  3. A crise política e econômica que afeta o país pode estar se tornando um motivador para a internacionalização.
  4. As estratégias observadas revelam que as empresas buscam entrar e se expandir nos mercados internacionais para consolidar posições nas cadeias globais de valor mais do que para avançar nessas cadeias. Ou seja, as multinacionais brasileiras buscam posição cada vez mais fortes nas indústrias nas quais elas já são fortes. Segundo os autores, esta estratégia é distinta da que ocorre com outros países emergentes, sobretudo a China, cujas empresas estão fazendo aquisições para avançar em tecnologias e negócios nos quais não tinham experiência anterior.

Autores sobre internacionalização (Casanova, Fleury) comprovam que as multinacionais brasileiras são poucas e pequenas quando comparadas com as empresas similares de outros países emergentes. O isolamento psíquico (link) das empresas brasileiras, a infraestrutura inadequada, o apoio seletivo do governo a poucas firmas escolhidas – as campeãs nacionais -, e, em alguns casos o mercado interno, são explicações para o pequeno grau de internacionalização das empresas brasileiras.

Como de costume, fica aqui uma pergunta para as mentes mais irrequietas: Em função da crise política e econômica, as empresas brasileiras vão continuar seus processos de internacionalização?

A marca de um país: Como melhorar a marca “Brasil”?

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O Brasil deve estar preocupado com a mensagem que passa para o mundo além da definição de metas regionais para o IDE (Investimento Direto Externo) e comércio (link para o post anterior aqui). Enquanto alguns países são estereotipados e outros não, muitos investem em mensagens específicas para que sejam transmitidas ao mundo. Uma expressão comum de marketing aplicado ao Brasil seria: O país precisa identificar a sua marca e comunicá-la corretamente aos mercados globais, a fim de melhorar sua inserção mundial. A Tabela 1 apresenta uma lista simplificada de qualidades associadas com os países selecionados. Do ponto de vista do comércio internacional, o Brasil não envia mensagem clara para os investidores globais.

País Fatores positivos para negócios e mensagens associadas ao país
India Tecnologia da informação e serviços, programação de software, vida espiritual
Alemanha Engenharia, precisão, rigor técnico
Japão Alta tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, aparelhos eletrônicos
Estados Unidos Inovação, capitalismo, multinacionais, universidades de alto padrão, tecnologia
Reino Unido Língua inglesa, Oxford e Cambridge, tradição, estabilidade
França Tecnologia aeroespacial, vinhos, moda, sofisticação, gastronomia.
China Indústrias, multinacionais, manufatura de baixo custo
Italia Moda, design, artes, gastronomia, história
Brasil Amazônia, lugares exóticos

Tabela 1: Mensagens associadas a alguns países

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Um relatório interessante sobre marcas associadas aos países pode ser baixado gratuitamente do sítio da consultoria FutureBrand. O material apresenta as principais mensagens transmitidas por vários países e destaca que a América Latina tem potencial para marcas fortes de vários países, mas atualmente nenhum país na região desenvolveu uma marca forte considerada global. Como de costume, uma pergunta para os meus leitores exigentes: Vocês conhecem um país que mudou positivamente a sua mensagem ao longo do tempo?

Link para a Marca País de relatório Imagem desenvolvida pela FutureBrand aqui

Link para a imagem das bandeiras aqui

Imagem do ranking de países retirada do relatório from Country Brand Index 2014-2015 da FutureBrand

Geopolítica comercial: Para onde o Brasil deve ir?

InternationalTrade

A ciência econômica nos ensina que os recursos são finitos. Portanto, priorização é o nome do jogo para as instituições, gestores e até mesmo países. Lourdes Casanova e Julian Kassum, no grande livro “A Economia Política de uma Potência Global Emergente – Em Busca do Sonho Brasileiro” abordam o debate ainda inacabado sobre as prioridades da política externa brasileira. Os autores argumentam que o Brasil precisa encontrar seu papel no cenário global. Quais regiões ou países nos quais o Brasil deveria concentrar seus esforços para aumentar o comércio e o investimento, a fim de deixar uma marca arena global ? Como Casanova e Kassum colocam claramente: “Para onde o Brasil deve ir?” As muitas opções geográficas incluem, mas não estão limitadas, aos Brasil seus vizinhos – América Latina, aos parceiros comerciais tradicionais – EUA e União Europeia, ao maior e mais recente parceiro comercial – China, a outros países do bloco dos BRICRússia e Índia, e a mais nova fronteira do comércio global – África. A Tabela 1 apresenta uma comparação breve, unilateral e inacabada dos prós e contras de cada opção. Como de costume, este autor gentilmente aceita quaisquer comentários e críticas.

Pros Cons
América Latina Tamanho da economia brasileira em comparação com as economias de outros países; longa história de comércio intraregional; fronteiras pacíficas Comércio intraregional decrescente  ao longo do tempo, crescente populismo na região; situação da Venezuela e Argentina
EUA Tamanho do mercado interno; EUA como uma fonte de tecnologia e inovação Existência de subsídios aos produtores locais de aço e etanol, entre outros itens
União Europeia Tamanho do mercado consumidor;  forte presença na América Latina de multinacionais provenientes da Alemanha, França, Itália, Espanha e Suécia Existência de subsídios para muitos produtos agrícolas
China Tamanho do mercado doméstico chinês Distância psíquica (CAGE) muito grande.
Outras economias BRIC – Rússia e China Tamanho do mercado consumidor Barreiras não-tarifárias, distância psíquica (CAGE) muito grande, agendas políticas distintas
Africa Nova fronteira de comércio internacional, Brazil poderá ser fonte de tecnologia e serviços de alto valor agregado(gestão de projetos e consultoria) Falta de conhecimento dos mercados locais, ambiente regulatório obscuro

Tabela 1: Opções geográficas para investimento e comércio internacional

A encruzilhada que o Brasil atualmente enfrenta não é incomum porque muitos outros países tiveram de tomar decisões difíceis no passado. Japão se tornou um país industrializado durante o último século porque reformulou sua política externa e Coreia do Sul é atualmente um país rico porque investiu pesadamente em educação. Está na hora do gigante latino de fazer escolhas. O Brasil precisa de um plano para melhorar a sua posição no mundo e uma estratégia que responda a uma pergunta crítica: Para onde o Brasil deve ir?

Brazil in Latam

Como de costume, deixo uma pergunta para os leitores deste blog: Você conhece algum outro país que sobreviveu a um cenário difícil e conseguiu ser bem sucedido depois de fazer escolhas difíceis?

Fonte da imagem “International Trade” aqui; fonte do mapa Brazil aqui

Bancos de desenvolvimento na América Latina e Caribe

international_offshore_bankingA literatura moderna mostra que os bancos de desenvolvimento têm apoiado o desenvolvimento da América Latina e região do Caribe (LAC), uma parte do planeta com infraestrutura inadequada e mercados ineficientes. No entanto, estes bancos poderiam ser mais efetivos em seus papéis de desenvolvedores do mercado. Musacchio e Lazzarini (Reinventando o Capitalismo de Estado: Leviathan nos Negócios, no Brasil e Além) apresentam evidências de um grande banco de desenvolvimento – BNDES, banco de fomento brasileiro – que mostram que este tipo de instituição financeira causa impactos tanto positivos quanto negativos nos tomadores de empréstimos. Os bancos multilaterais auxiliam os governos e os setores privados quando promovem a transferência de conhecimento para os governos, quando divulgam as melhores práticas entre os recebedores de empréstimos e quando concedem créditos de baixo custo para os países da região. No entanto, a crítica aos bancos multilaterais incluem: i) existência de políticas de gestão de risco que limitam severamente o potencial de auxílio aos governos, e ii) preferência por empresas com boas conexões políticas.

O que dizer das diferenças entre as várias instituições multilaterais na região da América Latina e Caribe? Algumas de suas características estão expostas abaixo:

Banco Mundial: O Banco Mundial é uma fonte de assistência técnica e financeira aos países em desenvolvimento ao redor do mundo, não só aos da América Latina e Caribe e faz parte da Organização das Nações Unidas. Fornece empréstimos a juros reduzidos, créditos e subvenções para os países em desenvolvimento. Além dos produtos financeiros, a organização presta assessoria política, pesquisa e análise de problemas. Contudo, o Banco Mundial tem sido criticado tanto pelas condições impostas aos países devedores quanto pelo seu viés favorável ao modelo neoliberal de crescimento. Apesar das críticas, o Banco Mundial é uma das instituições financeiras mais bem-conceituadas do mundo. Por fim, seus padrões ambientais para avaliação do projeto se tornaram ponto de referência para avaliação de projetos em todo o mundo.

BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) é o segundo maior banco de fomento da América Latina, com US $ 303,3 bilhões em ativos e lucro líquido de US $ 3,2 Bilhões em 2014. Embora o banco apoie iniciativas sociais em educação, transporte público, sanitização e agricultura de médio porte, esta organização que é fortemente subsidiados pelo Tesouro Nacional, costuma financiar grupos industriais de grande escala. Por exemplo, 62% dos desembolsos de US$ 79 bilhões ocorridos em 2014 foram direcionados para grandes empresas (aquelas com faturamento acima de US$ 100 milhões). O BNDES é um agente importante no desenvolvimento industrial do Brasil, um país com desenvolvimento industrial tardio, porém a organização tem sido criticada por apoiar a expansão internacional de “campeões nacionais” em detrimento de auxiliar médias empresas. Ou seja, o banco tem favorecido grandes grupos privados que foram escolhidas a dedo pelo  Governo Federal para receber vultosas linhas de crédito subsidiado. 

BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) é uma instituição financeira voltada exclusivamente aos países da América Latina e do Caribe e é filiada à Organização dos Estados Americanos. O BID faz empréstimos aos governos dos seus países membros e possui status de credor preferencial, o que significa que os países devedores deverão pagar ao BID os empréstimos feitos por esta instituição antes de pagar demais obrigações a outros credores, tais como bancos comerciais tradicionais. De acordo com o seu próprio website, o BID não é apenas o maior e mais antigo banco de desenvolvimento na região mas também a principal fonte de financiamento multilateral para o desenvolvimento econômico, social e institucional na América Latina e no Caribe. O banco apoia governos, setor privado e empresas de pequeno e médio porte.

CAF (Corporação Andina de Fomento, Banco de Desenvolvimento da América Latina) foi criada para promover o desenvolvimento e a integração andina servindo aos setores público e privado. De acordo com o jornal Financial Times (link) o CAF financia mais projetos de infraestrutura na América Latina do que o Banco Mundial e do BID juntos, mas é acusado de opacidade e de baixos padrões de empréstimo.

CABEI (Banco Centro-Americano de Integração Econômica) é um banco de desenvolvimento cujos ativos totais somam US $ 8 bilhões e cujo foco é apoiar financeiramente seus países fundadores: Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica. Devido à sua alta concentração de carteira em apenas cinco países e a baixa qualidade creditícia de seus membros, o CABEI detém a segunda pior classificação de crédito dentre os bancos multilaterais da região.

FLAR (Fundo Latino-Americano de Reservas) e CDB (Banco de Desenvolvimento do Caribe) são os menores bancos de fomento na América Latina e Caribe. As duas organizações mantém forte posição de capital e ampla liquidez, para contrabalancear alguns de seus aspectos negativos: o alto risco de concentração de crédito e o risco embutido em sua carteiras. A fim de compreender as instituições multilaterais, a Figura 1 apresenta algumas de suas diferenças. O eixo horizontal mostra o retorno sobre ativos de cada instituição, o eixo vertical a razão entre o patrimônio liquido e os empréstimos realizados e o tamanho dos círculos mostra os ativos totais de cada banco de desenvolvimento.

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Figura 1: Comparação entre diversos bancos de desenvolvimento. Fonte: Autor

Como podemos ver no gráfico acima, o BNDES é mais rentável (em comparação ao seu total de ativos ) do que o BID e o Banco Mundial . Isso é explicado pelo fato de que os dois bancos multilaterais são mais avessos ao risco, ou seja, possuem melhor classificação de risco, do que o seu equivalente brasileiro, como mostrado na Tabela 1.

Bancos de desenvolvimento Avaliação Standard & Poors
IDB AAA
World Bank AA+
CDB AA
FLAR AA
CAF AA-
CABEI A
BNDES BBB-

Tabela 1: Classificação S&P para bancos de desenvolvimento na América Latina

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Em relação às políticas de concessão de empréstimos, o BNDES desembolsou quase dezoito vezes o montante total emprestado pelo Banco Mundial e oito vezes a quantidade desembolsada pelo BID em 2014. Isso é explicado pela política agressiva de crédito utilizada pelo BNDES para apoiar as multinacionais brasileiras e a criação de “campeões nacionais”. A Figura 2 ilustra a comparação total de empréstimos dos bancos de fomento.

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Figura 2: Desembolso total em 2014. Fonte: Autor

Concluindo, o debate atual sobre bancos multilaterais de desenvolvimento inclui os seguintes tópicos:

1. Impacto real versus potencial dos bancos no crescimento regional devido às condições impostas por essas organizações aos países devedores;

2. Viés a favor de teorias mais liberais, especialmente pelo Banco Mundial e BID, e

3. Concentração e favorecimento de empréstimo a empresas bem-conectadas politicamente, mais especificamente no caso do BNDES, que é chamado de “emprestador de primeira instância” e utilizado pelo governo brasileiro para apoiar campeões nacionais e o processo de internalização das multinacionais brasileiras

Pergunta final para as mentes mais curiosas: Como os bancos de desenvolvimento poderiam mitigar os riscos operacionais e de cambiais?

Fonte da imagem do globo aqui; fonte da imagem do banco aqui.

Referenciais:

  1. Center for Global Development:  Why Multilateral Development Bank Practices Are So Far from Their Potential
  2. Investors Relation websites: World Bank, IDB, BNDES, CAF, CABEI, CDB, FLAR
  3. Musacchio, A. Lazzarini S.G. Reinventing State Capitalism: Leviathan in Business, Brazil and Beyond (Harvard University Press, 2014)

Um dragão longe de casa: O aumento da influência chinesa na América Latina e as razões para a colaboração Sul-Sul

Nos últimos anos o mundo testemunhou o impressionante crescimento da influência chinesa na América Latina, não apenas pelos contratos de alto impacto na mídia com também pelos investimentos em larga escala em infraestrutura: trocas de petróleo por dinheiro em espécie com a Venezuela, altos volumes de importação de commodities do Brasil e da Argentina e investimentos diretos no Brasil, Peru, Argentina e Equador. Se levarmos em conta que até recentemente a América Latina não era uma zona de influência chinesa (como são o centro e o sudeste da Ásia, por exemplo), surgem algumas questões importantes: Quais as razões para tais movimentos estratégicos e geopolíticos? O que a China busca na América Latina?

Primeiro, a China está preenchendo o vazio deixado pela decrescente influência norte-americana na região. Estado Islâmico, Rússia e o conflito Israel-Palestina demandam muito mais atenção e energia do que os países ao sul do continente americano. Segundo, a fraca liderança regional. Tanto o Brasil – principal economia –, quanto o MERCOSUL – bloco de comércio regional -, não fornecem opções de crescimento para as economias latino-americanas.   Deste modo, a China apenas se aproveita dos espaços livres deixados pelos líderes regionais. Terceiro, existe um viés populista-esquerdista de governos atuais. Maduro (Venezuela), Kirchner (Argentina), Dilma (Brasil), Correa (Equador), Morales (Bolívia) e Humala (Peru) frequentemente viram suas costas para as tentativas de maior comércio, intercâmbio e integração com os Estados Unidos. Quarto, as multinacionais chinesas seguem o conhecido Paradigma Eclético de Internacionalização de empresas, desenvolvido por John Dunning nos anos 90: a China busca novos mercados e novas fontes de matéria prima de modo a garantir seu fornecimento de minério de ferro, petróleo, soja, proteína animal e terras raras, uma categoria de internacionalização que Dunning chamou de busca-por-recursos. A demanda das empresas chinesas criou a chamada “explosão das commodities” latino-americanas, que, como explicamos, surgiu através do comércio dos setores agrícolas e minerais com a China. A Figura 1 apresenta o montante de investimentos e contratos entre a China e alguns países da América Latina.

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Figura 1: Investimentos chineses na América Latina, em Bilhões de US$, Fonte: American Enterprise Institute.

Uma aposta arriscada ou um risco calculado?

Embora a China lide com países razoavelmente arriscados, tanto politicamente quanto financeiramente, os investimentos chineses parecem ser bem avaliados por duas razões: os países da região precisam dos investimentos chineses para melhorar sua claudicante infraestrutura e a China é um importante destino para as commodities latino-americanas. Deste modo, uma decisão radical por parte dos países latinos é muito pouco provável. A Tabela 1 apresenta os principais destinos das exportações de vários países da América do Sul.

 Brazil Argentina Venezuela Peru Colombia Chile Ecuador
 China Brazil China China US China US
 US Chile India US China US Chile
 Argentina China Singapore Switzerland Spain Japan Peru
 Netherlands US Spain Canada Panama South Korea Colombia
 Japan Spain US Japan Venezuela Brazil Venezuela

Tabela 1: Principais destinos das exportações dos países latinos: Fontes: Globaledge (MSU) exceto Venezuela; Venezuela: Observatory of economic complexity

Em nosso próximo artigo discutiremos a sustentabilidade da estrategia chinesa e seu impacto no longo prazo.

Como as empresas evoluem?

Evolution of Industries

Indústrias evoluem ao longo do tempo. Portanto, uma pergunta bastante razoável pode surgir: Existe uma ferramenta que nos ajude a entender como as empresas evoluem? Entre algumas opções existe o “Modelo de Camadas”, que foi usado por Martin Fransman em 2002 para discutir a evolução do setor de telecomunicações. No início esta indústria era extremamente simples: alguns fabricantes de equipamentos vendiam hardware para empresas de telefonia. Tradicionalmente (até o advento das comunicações de dados e Internet), o setor de telecomunicações foi pensado como englobando Camadas 1 e 2 no modelo de camada indicadas na Figura 1. No entanto, devido à evolução da internet, o protocolo TCP/IP (Transmission Control Protocol / Internet Protocol) não só forneceu uma forma eficaz de transferência de dados entre diferentes entidades, mas também providenciou uma plataforma na qual várias camadas superiores poderiam ser construídas de modo a oferecer uma gama de serviços, conteúdos e aplicações para os consumidores finais.

Layer Model I

Figura 1 – Modelo de Camadas, Fransman (2002)

A história moderna da administração mostra que entrantes tais como browsers (Netscape), serviços de informação online (Bloomberg) e as empresas de comércio eletrônico se juntaram à indústria, o que causou uma mudança impressionante neste segmento. Portanto, o termo indústria de telecomunicações tornou-se obsoleto e testemunhamos a ascensão do termo “indústria da infocomunicação”(Camadas 3,4 e 5).

evoluion

O Modelo de camadas é simples e possui muitas características positivas. Primeiro, o modelo nos ajuda a limitar os limites da indústria. Em segundo lugar, torna explícito o conceito de modularização: em um sistema modular, especialistas em qualquer módulo precisam ter conhecimento apenas das regras para a conexão de seu módulo com outros complementares, necessitando de pouco conhecimento sobre o que se passa dentro dos outros módulos. Portanto, modularização facilita a entrada de empresas em todas as camadas, permitindo que as organizações se concentrem em suas próprias atividades. Em terceiro lugar, facilita a compreensão de uma indústria, ajudando a descobrir o que as empresa fazem. Finalmente, ajuda os pesquisadores a perceber os obstáculos à entrada em cada camada. Por exemplo, exigência de capital é uma barreira de entrada muito alta para os fabricantes de equipamentos e isso explica por que Camada 1 é pouco povoada. Por outro lado, não há muitas barreiras para uma empresa fazer parte da Camada 5, o que explica por que muitas firmas fazem negócios neste último nível.

A partir de uma perspectiva evolutiva o modelo nos ajuda a perceber o quanto uma indústria mudou ao longo do tempo. Considere a Figura 1 como proposto por Fransman em 2002 e compare-a com a versão 2015 apresentado na Figura 2. Algumas empresas desapareceram devido às forças de mercado (Netscape), outras foram adquiridas por seus rivais (Lucent adquirida pela Alcatel) e alguns recém-chegados se juntaram à indústria de “infocomunicação” (Worldpress, Tumblr, Instagram). Além disso, muitas empresas, tais como operadoras de telefonia móvel e de rede fixa, estão presentes em mais de uma camada.

 Layer Model II

Figura 2 – Modelo de Camadas, 2015

Como qualquer referencial, o Modelo de Camadas apresenta algumas deficiências. Por exemplo, enquanto ele enfatiza as diferenças entre as várias camadas, tende a negligenciar diferenças dentro os diversos níveis. Por exemplo, existem diferenças fundamentais entre redes fixas e móveis que o modelo não explicita. Outra falha importante é que instituições importantes são deixadas de lado. Por exemplo, agências reguladoras, e órgãos públicos ajudaram a moldar a indústria de infocomunicações, sua estrutura e seu modo de funcionamento.

Pergunta final:

O Modelo de camadas é uma ferramenta útil para abordar muitas questões relevantes, que são necessárias para a compreensão do surgimento da indústria de infocomunicação. Porém, a evolução deste setor não parou. Presenciamos há alguns anos o nascimento da indústria de jogos e o fortalecimento da indústria do entretenimento; por isto, temos fortes motivos para acreditar que elas serão as próximas atividades a serem adicionadas ao modelo. Assim, a pergunta final é a seguinte: Qual será o novo nome desta indústria?

Referencia:

Fransman, M. Mapping the evolving telecoms industry:the uses and shortcomings of the layer model. Telecommunications Policy 26 (2002) 473–483