Compra de caças pelo Governo Brasileiro

Recentemente dei uma entrevista sobre o processo de compra de 36 aviões de caça pelo Governo Brasileiro. O pedido do jornalista foi de analisar, de um ponto de vista de estratégia corporativa, os movimentos feitos governo federal, os critérios de seleção do consórcio vencedor, as implicações de cada uma das escolhas e, por fim, as causas que levam a este processo ser tão longo. Segue abaixo um resumo do que conversamos:

Do ponto de vista do governo federal, alguns critérios de decisão devem ser priorizados. Os mais óbvios seriam a transferência de tecnologia, desenvolvimento de cadeia local de fornecimento de peças e capacitação de técnicos e engenheiros. Outros benefícios de longo prazo seriam o eventual desenvolvimento da indústria nacional existente (através de transposição de tecnologia da indústria aeroespacial para outras indústrias) e eventual criação de uma indústria nacional de defesa. Dentro deste critério, o produto americano “F/A-18 Super Hornet” (Boeing) aparece como o menos interessante porque, apesar de ser o mais desenvolvido tecnologicamente, é o que possui menor garantia de transferência de tecnologia. O governo norte-americano promete autorizar a transferência tecnológica porém como nos Estados Unidos esta é uma atribuição do Legislativo e não do Executivo, não é possível garantir que receberíamos a tecnologia prometida.

Economias de escala: É a ideia do custo marginal decrescente. Neste ponto, a opção pelo caça Francês “Rafale” (Dassault Aviation) se torna mais interessante, porque com a aquisição de 126 unidades pelo governo Indiano o equipamento Francês poderá ter seu preço final reduzido.

Economias de Escopo: É a ideia de que a compra dos aviões poderia fazer parte de uma compra maior que incluísse outros equipamentos tais como submarinos, helicópteros, navios e radares, ou seja, concentrar a escolha em somente um fornecedor. Esta variável é absolutamente razoável do ponto de vista puramente econômico, porém em termos de geo-política é necessário levar em conta outros aspectos estratégicos. Por exemplo, vale a pena tornar-se dependente tecnologicamente de apenas um país? E se as relações diplomáticas com o eventual único fornecedor se estremecerem?

Um ponto interessante é a demora da tomada de decisão. Pelo que sabemos este processo começou ainda durante o governo FHC, atravessou o período Lula e certamente não será encerrado em 2013. Os motivos mais razoáveis são a falta de experiência dos vários governos federais em lidar com assuntos de defesa nacional, crises econômicas que geram cautela com gastos públicos, o anuncio precipitado de uma suposta vitória do caça Francês, apesar do projeto do sueco “Gripen NG” (Saab) ser o preferido pela FAB e a própria complexidade do assunto, conforme comentei acima. De qualquer modo, os governos tiveram algumas boas razões para adiar a decisão, mas particularmente acho que o estoque de bons motivos já está chegando ao fim. Minha opinião é baseada no fato de que os equipamentos atuais já estão bastante envelhecidos e defasados, o que torna sua manutenção muito cara.

Meu objetivo com este texto é demonstrar que as opções estratégias, sejam de empresas, países, pessoas e organizações são complexas e envolvem inúmeras variáveis.

Fonte do infográfico aqui

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