Relatório sobre Inovação, Pesquisa & Desenvolvimento e Manufatura.

Uma importante empresa de consultoria publicou recentemente um estudo sobre práticas globais em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e Inovação e suas implicações sobre processos produtivos globais de empresas multinacionais (link para o relatório completo aqui). O período de festas de Natal e Ano Novo Festas permitiu que eu digerisse, além de nozes e bolos, as pouco mais de 180 páginas do estudo. Gostaria de destacar alguns pontos:

1. Enquanto as economias avançadas apresentaram um déficit comercial global de US$ 342 Bilhões em bens intensivos em mão-de-obra, estes mesmos países apresentaram superávit de US$ 726 Bilhões em bens inovadores. Estes dados são importantes porque mostram aos países em desenvolvimento que investimentos em inovação e P&D trazem mais benefícios econômicos do que as políticas industriais que condenam estas mesmas economias a serem eternas linhas de montagem. Produção intelectual possui maior densidade econômica que repetição de tarefas de montagem.

2. O setor manufatureiro de países desenvolvidos continuará a contratar trabalhadores nos setores produtivos e de serviços, tais com projetos e pós-vendas. Porém, no longo prazo produção nos países desenvolvidos continuará sobre pressão devido aos seguintes fatores:

a. Crescimento do setor de serviços como uma fatia de toda a economia. Este fenômeno ocorreu nos EUA, Alemanha e Coréia do Sul durante seus processos de industrialização e se repete em economias emergentes como a Brasileira.

b. Crescente competição global, que empurra economias avançadas para setores mais especializados e demandantes de alta especialização.

Linha de Produção

Clique aqui para a fonte da imagem acima (Maurício Lima/AFP)

3. As áreas mais promissoras em Inovação parecem ser a de novos materiais, nanotecnologia, robótica, impressão em 3-D e tecnologia da informação. A compreensão de usos massivos de dados (Big Data) será crítica para a compreensão de tendências de consumo e deverá orientar os investimentos em inovação.

4. Planejamento estratégico será cada vez mais difícil. Isto ocorre por que:

a. As cadeias de suprimento/produção estão cada vez mais globalizadas e complexas e por isto mesmo mais suscetíveis aos desastres naturais tais como terremotos e inundações. Deste modo, os executivos precisarão mensurar melhor o equilíbrio delicado entre ganhos de eficiência vs. resiliência de uma cadeia de suprimentos menos fragmentada e dispersa. Bem vindo a um mundo mais complexo!

b. Maior volatilidade na demanda e preços de commodities.

c. Ações governamentais cada vez mais intensas e frequentes, na forma de política industrial, intervenção no custo de energia e emissões de carbono e crescimento de barreiras comerciais. Em um mundo ultra-Keynesiano, Big Government será regra, não a exceção. (Nota pessoal: no meu entendimento, uma péssima resposta à crise de mercado que causou a crise de 2008).

5. Multinacionais têm sido muito mais lentas em internacionalizar investimentos em inovação e P&D do que investimentos em produção. Isto ocorre por que as economias avançadas apresentam maior proteção à propriedade intelectual, maior disponibilidade de pesquisadores e cientistas e mercados consumidores que demandam produtos em estágios iniciam de seus ciclos de vida. Um exemplo disto é a indústria farmacêutica, que posiciona P&D apenas em centros de pesquisa localizados nas economias desenvolvidas.

6. Inovação é a solução para sair do jogo de arbitragem de mão-de-obra de baixo custo.

7. Inovação causa impactos em diversas indústrias, não apenas naquelas para as quais as inovações foram desenvolvidas e concebidas. Por exemplo, a tecnologia GPS pode ser usada em processos produtivos sendo que ela foi originada para fins militares. Outro exemplo interessante é que as inovações em máquinas pesadas no Século XX, criadas para a indústria de construção civil elevaram a produtividade na agricultura e na indústria.

Por fim, percebemos que Inovação não é um jogo de soma-zero: Um país pode perder a liderança em alguma indústria e ainda assim se tornar líder em outras áreas. Por exemplo, a  Alemanha perdeu sua liderança na fabricação de eletrônicos mas continua uma líder global em produção. Simultaneamente,  este país é reconhecida por seus projetos inovadores em engenharia e possui superávit comercial em bens manufaturados.

Minha conclusão é que Inovação é uma das melhores ferramentas para sair do jogo de baixo custo de produção e da alta volatilidade de preços de commodities. Minha pergunta é se, como um País, estamos fazendo as coisas certas. O que vocês acham? O que precisamos fazer?

Clique aqui para a fonte da imagem acima (CAPEC)

Link para post sobre inovação aqui

Link para post “Quem é Quem em Inovação I” aqui.

Link para o post “Quem é Quem em Inovação III” aqui.

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5 comentários sobre “Relatório sobre Inovação, Pesquisa & Desenvolvimento e Manufatura.

  1. Regina Aparecida Santiago de Oliveira Celso disse:

    Para se pensar… E quanto ao Brasil, estamos fazendo a lição de casa? Gostaria de citar por exemplo, o Programa Ciência sem Fronteiras, onde busca promover a consolidação, expansão e internacionacionalização da ciência e tecnologia. Promovendo assim a competitividade brasileira em relação a INOVAÇÃO E TECNOLOGIA. Entre as suas principais metas, podemos citar a oferta de bolsas (estágio) no exterior para alunos de graduação e pós graduação e na quantidade de até 101 mil, em quatro anos. Assim como, através deste intercâmbio permitir que também pesquisadores do exterior venham para o Brasil e realizem pesquisas e estudos em parcerias com os alunos brasileiros. Trata-se de um esforço conjunto dos Ministérios da Cultura, da Ciência, Tecnologia e Inovação e do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Segundo dados oficiais e atualizados em 06.12.2012 são são 21.418 bolsa concedidas em paises como: Estados Unidos, Alemanha, França, Espanha, Holanda, Chile, Portugal, Reino Unido, Coréia do Sul, Canadá, Austrália e outros.
    Mas fica a grande questão:
    Esta ação por si só será suficiente para tirar o Brasil do atraso enorme sob o ponto de vista de inovação e tecnologia avançadas, acumulado por muitos anos e falta de investimentos na Educação, especialmente nas pesquisas cientîficas? FICA A QUESTÂO!!!

    • Olá Regina,

      obrigado pelo comentário. Respondendo à tua pergunta, na minha opinião o “Ciência sem Fronteira” é algo positivo, mas é “muito pouco, muito tarde”. Precisaríamos de mudanças conceituais muito grande em nosso modelo de ensino. Estamos muito longe de seguir a trilha da Coréia do Sul, que saiu de uma situação econômica muito desfavorável para se tornar um país industrializado.

  2. Marcelo de Araújo Simões disse:

    A pesquisa científica no Brasil ainda é pouca e de baixa qualidade porque os governos nunca se preocuparam objetivamente e com foco na questão da nossa educação básica. As nossas escolas ainda educam através de um modelo antigo, cujo foco está na disciplina, no enformamento dos pensamentos. Não há um modelo que dê enfase no empreendedorismo, que disponibiliza para as nossas crianças as ferramentas para que elas possam lidar com os fatores da vida, ou melhor, que as ensine a pensar, a desenvolverem os seus talentos e serem capazes de solucionar problemas sem as respostas prontas, que nos foram passadas durante o ensino médio e repetido na universidade. Enquanto não tivermos escolas e universidades nas quais seja possível criar e desenvolver pensamento, de maneira sustentável e perene, não seremos uma Coréia, não iremos fabricar inteligência e tecnologia de ponta.
    Uma pergunta: será que estes alunos universitários que ganham as bolsas de estudos em universidades de ponta no exterior pensarão em voltar para o Brasil e correrem o risco de ficarem limitados para criar e inovar, lidar com tantas barreiras políticas, legais e tributárias que dificultam o processo de inovação e criação intelectual? Continuaremos lidando com os temas básicos e elementares por quantas gerações?

  3. Paulo Harada disse:

    Concordo com o questionamento da Regina, pois apesar do Ciência Sem Fronteiras ser uma iniciativa louvável do Governo Brasileiro, isoladamente tem grande possibilidade de não apresentar resultado satisfatório.
    Primeiramente, cito reportagem recente da Folha de SP, onde somos informados que grande parte das bolsas vai para alunos de graduação. Obviamente a experiência sempre será válida, mas um aluno nesta da fase de maturação não está pronto para extrair o diferencial de uma experiência de vanguarda. Como os recursos são limitados, o aproveitamento seria modesto diante de um acadêmico que já “esgotou” o “know how” sua instituição de origem.
    Segundo, grande parte destas bolsas foram concedidas para instituições de baixa relevância internacional, por vezes até de avaliação inferior a cursos equivalentes brasileiros.
    Terceiro, o País que mais recebeu bolsistas foi Portugal. Não tenho os números nem competências para avaliar a qualidade das instituições deste país, mas parece haver um viés por conta da língua. É de conhecimento geral a importância da língua inglesa como universal no meio científico, e a falta de domínio desta é um “gargalo” fundamental para qualquer universidade pretender mínima representatividade internacional.
    Aproveito a opinião do Marcelo, que tocou em um ponto fundamental, nós não temos um ambiente político, jurídico e tributário voltado para a inovação. Há uma cultura muito arraigada dos brasileiros e suas instituições de se posicionar de forma condescendente como consumidor das inovações importadas.
    Apesar de parecer um pouco amargo o apontamento destas fragilidades, penso que a melhoria de qualquer sistema passa pelo debate aberto das idéias, e não das ideologias e posições. Parabenizo a iniciativa do governo, mas penso que há questões importantes para o melhor aproveitamento dos esforços.
    Kaltenecker, parabéns pela iniciativa!

    • Olá Paulo,

      muito obrigado pelos teus comentários. Infelizmente, compartilho do teu ceticismo com respeito ao ambiente local, que me parece pouco favorável à inovação e empreendedorismo.

      De qualquer modo, alguns ajustes no programa CSF foram realizados recentemente, tanto na escolha das universidades quanto na seleção dos bolsistas que receberão o investimento. Vamos acompanhar estes desenvolvimentos e torcer para que Educação se torne uma prioridade, assim com foi na Coréia do Sul nos anos 60. Acho que somente assim deixaremos de ser meros exportadores de minérios e grãos.

      Abraços,

      Evodio Kaltenecker

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