Falência do Monitor Group, dançarinos na cova do Michael Porter e análise de “clusters”.

Recentemente lemos na imprensa especializada a notícia surpreendente de que o Monitor Group, empresa de consultoria em gestão estratégica anunciou sua falência e em seguida foi comprada pela Deloitte, empresa mais conhecida pelos serviços de advisory, auditoria e contabilidade. Empresas nascem e morrem todos os dias, porém o interessante neste caso é que a mesma foi fundada por Michael Porter, o professor de negócios mais influente da história e criador de ferramentas de análise utilizadas por muitos professores de administração, dentre os quais eu me incluo. Apesar de não saber ao certo qual era, atualmente, o papel do Prof. Porter na empresa (acredito que muito pequeno) e quais as causas do fracasso da empresa (acredito que devido à execução da estratégia), notei que vários jornalistas começaram a criticar o trabalho do Prof. Porter. Uns escreveram que o framework 5-forças era centrado na busca pela criação de vantagens competitivas frente aos seus concorrentes, ao invés de concentrar na busca pela satisfação de necessidades do consumidor. Independentemente da validade da crítica, gostaria de aproveitar o momento e descrever um pouco o trabalho do Prof. Porter, sobretudo seu estudo sobre grupos estratégicos.

Michael Porter percebeu que algumas indústrias eram consistentemente mais rentáveis do que outras e ao mesmo tempo, alguns grupos de empresas dentro de uma dada indústria (que ele chamou de “grupos estratégicos”, porque as empresas destes grupos possuíam a mesma estratégia) possuíam rentabilidade superior. Por fim, mesmo dentro de um grupo estratégico superior, algumas empresas eram mais rentáveis do que o resto do grupo. Em sua pesquisa, Porter descobriu algumas razões que explicam estes fatos.

  1.  Características comuns da Indústria explicariam diferenças de rentabilidade entre indústrias: taxa de crescimento, estrutura dos fornecedores, tecnologia
  2. Características de um grupo estratégico: barreiras de mobilidade, vulnerabilidade a produtos substitutos e rivalidade de outros grupos.
  3. Posição da empresa dentro de um grupo estratégico: grau de concorrência dentro do grupo, escala da empresa em relação às outras e capacidade de implantar estratégia.

Para entender melhor o conceito de estratégia e a análise de clusters, Porter desenvolveu o conceito de dimensões estratégicas, que são as varíáveis que explicam as diferenças estratégicas entre empresas. Escolhendo corretamente as variáveis estratégicas para os eixos horizontal e vertical e plotando as empresas de acordo com seus valores X e Y, teremos então um gráfico que mostraria os segmentos industriais e as empresas dentro de cada um dos clusters. Naturalmente, meu propósito com este artigo não é explicar a montagem de um gráfico de clusters, mas sim mostrar a relevância do trabalho do Prof. Porter.

Segue abaixo um exemplo de um gráfico que permite a análise de clusters, neste caso para o segmento de varejo bancário (nota: Utilizo este material em alguns cursos de estratégia; deste modo, sugiro que não tentem fazer nenhuma análise porque a discussão do case está dentro de um contexto que não replicarei aqui).

clusters

Fonte da foto do Michael Porter aqui

Anúncios

Um comentário sobre “Falência do Monitor Group, dançarinos na cova do Michael Porter e análise de “clusters”.

  1. Edélcio Sardano disse:

    Sem entrar no mérito das teorias ou da empresa do Dr. Porter, permita-me uma breve consideração.
    Não é raro vermos homens de ciência sendo atacados por causa de seus sucessos ou fracassos no plano prático. E como se não bastasse, não apenas os homens, mas também suas ideias e teorias, como tudo fosse a mesma coisa.
    O Prof. Franco em sua reflexão sobre a relação entre a teoria e a práxis segundo Adorno¹, levanta a seguinte questão: “…se a contradição constitui de fato o nervo da vida e penetra em todos seus aspectos, por que motivo só a relação entre teoria e práxis não estaria submetida a tal lógica?”
    A práxis ou atividade humana, em seu sentido denotativo, está sujeita a uma infinidade de condicionantes, sobre as quais o indivíduo nem sempre detém controle. Por sua vez, em se tratando de ciências humanas, o conhecimento científico parte da realidade, complexa por natureza e, por meio de metodologia científica, simplifica-a para a formulação de teorias, abstratas, com o intuito de melhor compreender essa realidade e transmitir esse conhecimento, para que algo ou alguém possa nela interferir.
    Em sua genial obra para desvendar as leis que regem o capitalismo, Karl Marx escreveu “O Capital”. Todavia, a Internacional Comunista, da qual foi fundador e na qual via um caminho para a solução das desigualdades inerentes ao capitalismo, não sobreviveu ante a resistência do nacionalismo e as malversadas práticas revolucionárias.
    Jean-Jacques Russeau, eminente filósofo, teórico político e escritor, em sua obra “Emílio, ou da Educação”, apresentou um rico estudo sobre o ser humano, a sociedade e o papel da educação. No entanto, Russeau colocou seus cinco filhos em um orfanato.
    Joseph Schumpeter, brilhante economista, a quem se atribui a criação do termo “empreendedorismo”, foi ministro das finanças da Áustria por alguns meses e em seguida, foi presidente de um banco privado que faliu, destruindo por completo seu patrimônio pessoal e com dívidas por alguns anos.
    No âmbito das ciências humanas e sociais aplicadas (diferentemente das ciências experimentais), não é mister do cientista agir sobre a realidade estudada, mas se assim o fizer, não lhe recai o dever do sucesso como balizador para a validade de sua teoria.
    Não é de se estranhar, portanto, que esses jornalistas, críticos do trabalho de Porter, transitando meramente na superficialidade factual, melhor dizendo, do pós-factual, queiram palpitar sobre as causas da falência de uma empresa. Mas em assim o fazendo, estão pecando exatamente naquilo que pretendiam criticar, na falta de conhecimento científico.
    “Se a aparência fosse igual à ciência, não haveria necessidade da ciência.” Karl Marx.

    (1) FRANCO, Renato. A relação entre teoria e práxis segundo Adorno. Perspectivas. São Paulo, nº 23, 2000. p. 85-99.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s