Aspirinas, aquisições e um gigante na esquina

A 2ª semana de Fevereiro trouxe não apenas as folias momescas mas também um gigante para o segmentou de farmácias no país. A CVS, grupo farmacêutico e varejista norte-americano comprou 80 % da rede de farmácias Onofre por um valor entre R$ 600 e 700 milhões. Para entender as razões deste movimento estratégico, precisamos olhar pelos pontos de vistas da empresa compradora e da empresa comprada.

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Pelo lado da CVS, a aquisição representa início do processo de internacionalização da empresa. Sendo sua primeira aquisição de uma rede de farmácias fora dos EUA, a CVS não possui experiência em gerenciar uma empresa sujeita às condições de mercado diferentes das do mercado americano. A frase do Tom Jobim “O Brasil não é para iniciantes”, tão comum em nosso meio empresarial, será testada mais uma vez. Esta compra será um teste interessante para a CVS. Como a Onofre possui apenas 44 lojas, é uma operação bem menor do que a atual operação da CVS (7.400 lojas); deste modo, será um balão de ensaios que, se bem sucedido, servirá de plataforma para outras aquisições.

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A CVS também se sentiu atraída pela própria estrutura do mercado de farmácias no Brasil. Como este é um mercado ainda muito fragmentado, o processo de consolidação está longe de terminar. Os movimentos ocorridos em 2010 (a fusão da Droga Raia com a Drogasil e a união da Drogaria São Paulo com a Drogaria Pacheco) podem se repetir, sobretudo com a participação do principal concorrente da CVS nos EUA, a Walgreens.

walgreens

Por fim, a ação da CVS pode ser entendida com uma resposta ao movimento estratégico da Walgreens, que comprou 45% de uma rede farmacêutica europeia. Deste modo, o processo de internacionalização da CVS difere do processo da Walgreens: enquanto a primeira buscou crescer em mercados emergentes, a segunda buscou mercados mais maduros.

Pelo lado da Drogaria Onofre, a aquisição provavelmente foi uma saída para evitar o destino de empresas pequenas e/ou familiares que precisam de grande capacidade de investimento para continuar a ser relevantes em seus segmentos. Ser adquirida por uma grande empresa em geral é a única forma de evitar se tornar um peixe pequeno em um lago cada vez maior; a busca por tamanho e oportunidades de ganhos de escala se torna imperativo em tais situações.

Como de costume, deixo algumas perguntas provocativas para as mentes mais irrequietas.

  1. O modelo de negócios da CVS não é totalmente replicável no Brasil. Nos EUA, as lojas CVS vendem muitos produtos que cuja venda não será permitida pela ANVISA.
  2. A permanência dos antigos donos sócios é necessária para a “passagem do bastão”. Os irmãos Arede possuem conhecimento do mercado local e contatos ao nível governamental. Até quando eles devem ficar na empresa que eles conduziam?
  3. O valor pago pela CVS foi de 25X o EBTIDA da Onofre, ao passo que as aquisições anteriores ocorreram por aproximadamente 20 X o EBITDA. Porque esta aquisição ocorreu em valor mais alto do que a média do mercado? O que a CVS viu na Onofre que outras empresas não viram?

Link para artigo sobre internacionalização de empresas aqui

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3 comentários sobre “Aspirinas, aquisições e um gigante na esquina

  1. fernandajordani disse:

    Evódio, parabéns pelo blog!!
    Sobre a Onofre, um dado interessante que a diferencia das outras drogarias é a preocupação com um bom branding, ou seja, fazer com que um potencial consumidor veja a marca como uma solução perfeita para o que deseja.
    Na Onofre podemos ver esta mudança já em 2002 quando eles inovaram o conceito de farmácia que vende apenas medicamentos, para uma drogaria e centro de bem estar, vendendo também além de remédios, produtos como perfumaria de marcas renomadas e atendimento diferenciado (ONOFRE MEGASTORE). Esta mudança do conceito foi também aplicada ao redesenho do logo e toda sua identidade visual, quesitos essenciais na prática de um bom branding. No logo retirada da cruz (símbolo de saúde) dando lugar ao movimento de ondas (simbolizando leveza e bem estar) e na identidade das lojas, com pés direitos duplos e iluminação apropriada e design de interiores impecável transmitindo uma ambientação que mergulha o consumidor ao “bem-estar”. Isso tudo com o trabalho primoroso de arquitetos renomados como Guinter Parschalk e João Armentano.
    Ou seja, um branding feito com primor, como algo importante na estratégia da empresa para atrair clientes e melhor de tudo sem afetar no preço dos produtos!
    Esta preocupação demonstra a grande diferença entre a Onofre e “as outras” drogarias. Bem-estar x doença, aquele velho tabu de tirar a imagem ruim que os lugares e suas funções podem trazer (o hospital não precisa lembrar doença, morte e tristeza, mas sim saúde, vida e felicidade).
    Agora, não conheço a CVS, mas espero que ela mantenha este espírito na marca ou agregue outros mais!
    Abraços,
    Fernanda Jordani

    • Olá Fernanda,
      obrigado pelo teus comentários.

      Você tocou em pontos interessantes: branding e arquitetura da marca. Em geral, a marca da empresa comprada é mantida quando ela é forte e impactante no mercado onde atua. Porém, também é comum ver a morte da marca (e o respectivo logo) da empresa comprada quando a empresa compradora precisa fazer um “turnaround”.

      Um exemplo bastante interessante foi o ocorrido com o grupo espanhol Endesa quando comprou 2 empresas de energia elétrica no Brasil no fim dos anos 90. Uma destas empresas era a antiga CERJ, estatal de distribuição de energia elétrica. A decisão (acertada, no meu entendimento) foi de criar uma nova marca, que traduzisse um novo tipo de relacionamento que seria buscado. Surgiu daí a marca Ampla. Porém, o mesmo grupo Endesa havia comprado a COELCE, distribuidora de energia no estado do Ceará. Nesta caso, a Endesa manteve tanto a marca quanto o logo porque percebeu que a COELCE era muito bem vista pelos seus clientes.

      No caso específico da Onofre, acredito que marca e logo serão mantidos, mas isto o tempo dirá. Particularmente, não me agrada o logo da CVS.

      Abraços,
      Evodio Kaltenecker

  2. Frederico Vecchi disse:

    Evódio, muito interessante o artigo.
    Como vc mencionou no início, a CVS está internacionalizando a sua marca e partiu para o Brasil por ser um mercado ainda não consolidado e muitas outras fusões ainda virão.
    A estratégia de iniciar as suas atividades adquirindo uma rede de drogarias pequenas (Onofre, 44 lojas) pode ser encarado como um projeto piloto para a gigante CVS, que possui este capital em caixa para fazer este movimento e, sem dúvida, conseguindo sucesso com esta operação inicial, irá vir com uma força maior para fazer outras aquisições e brigar com as grandes do mercado, como a Droga Raia+Drogasil e Drogaria São Paulo+Pacheco.

    Uma coisa que me chamou a atenção foi o valor da aquisição. 25x EBITDA, ao passo que a média é de 20x. Sinceramente, não sei o porquê dos americanos terem investido 25% a mais do que comumente se investe. Talvez não houvesse intenção dos donos da Onofre fazerem a venda e só assim que a negociação foi fechada, mas que é um fato que chama a atenção, isso sim.

    Quanto ao prazo que os antigos sócios devem ficar na gestão da empresa para a passagem do bastão é mais delicada, pois eles possuem algo muito valioso: a competência técnica de se administrar este negócio, nesta localidade, algo que os americanos desconhecem o modelo brasileiro. Além disso, como você mencionou, o fato deles terem lobby perante o governo paulista (talvez a palavra correta não seja lobby, mas sim um contato mais facilitado) ajuda muito em conseguir algumas vantagens e resolver alguns problemas.
    De qualquer maneira, os antigos donos são extremamente importantes nesse início para a CVS. Na verdade, talvez o ideal seja que eles, inclusive, assumam algum cargo presidencial neste primeiro momento ou de direção operacional de grande relevância para que o conhecimento seja passado aos novos donos. Em um médio prazo, eles podem (ou até mesmo devem!) assumir um cargo mais estratégico, seja no conselho de administração ou em alguma possível holding brasileira que a CVS possa vir a ter, para cuidar do negócio como um todo.

    Grande abraço!
    Fred Vecchi

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