Aquisições no ensino superior, EaD e outras avenças

Na semana passada, o mercado de educação superior foi surpreendido com a notícia da aquisição do grupo Anhanguera pelo grupo Kroton. Do ponto de vista corporativo/empresarial alguns fatores que tornam este movimento estratégico bastante interessante são:

  1. A velocidade com a qual a aquisição foi concluída, de modo a impedir a compra da Anhanguera pelo grupo Estácio;
  2. O fato que a Kroton era, até dois anos atrás, o menor dos três grupos nacionais no segmento de ensino superior (Estácio, Anhanguera e Kroton);
  3. A manutenção das marcas locais: os nomes das universidades serão preservados, o que confirma que o reconhecimento das marcas é importante neste segmento;
  4. A dificuldade que a Anhanguera apresentou em integrar a Uniban, o que tornou o primeiro um grupo alvo de aquisições;
  5. Geralmente em processos de aquisições, as ações do grupo comprador caem e as ações do grupo comprado sobem. Porém, neste caso o valor de ambas as ações subiu, o que mostra que os investidores acreditam que as sinergias e as economias de escala podem ser realizadas.

Em relação ao CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), autarquia responsável pela investigação e decisão sobre matéria concorrencial, não se espera que ocorra algum tipo de intervenção porque aparentemente não há muita sobreposição no segmento tradicional de ensino presencial.

livroUm leitor assíduo deste blog me perguntou sobre o futuro das instituições de ensino superior (IES). Acredito que, como qualquer segmento onde economias de escala estão presentes, as IES pequenas precisarão desenvolver estratégias de diferenciação (com cursos com características específicas) ou de enfoque (com cursos voltados para públicos específicos) se desejarem manter-se como instituições independentes. Consolidações sempre ocorrerão e farão com que empresas menores saiam do mercado.

Por outro lado, consumidores sempre necessitarão de novos produtos, fato que trará oportunidades que não são preenchidas por empresas grandes e que permitirá o surgimento de empresas menores aptas a atender a algum nicho específico. Este ciclo de compra de empresas, extinção de empresas menores e criação de novas empresas, focadas em nichos, rejuvenesce qualquer setor. Estas pequenas empresas terão três alternativas: i) crescimento (orgânico ou inorgânico); ii) venda (para outro grupo) ou iii) extinção (se não se tornarem economicamente viáveis). Um ótimo exemplo de surgimento de uma pequena empresa, com um nicho específico, é o projeto ISITEC, com seu curso de graduação em “Engenharia de Inovação”. Não sabemos se esta iniciativa terá sucesso, mas este caso mostra como pequenas organizações descobrem nichos não preenchidos por organizações maiores e tradicionais.

Um ponto interessante é que atualmente vivemos uma escassez de profissionais qualificados, o que a mídia chama de “apagão de talentos”, fato que limita o crescimento do PIB nacional. Do ponto de vista do Governo, sobretudo o Federal, estes processos de consolidação são bem vindos porque aumenta a capacidade de oferta de cursos universitários. Outro fator importante é que a consolidação levará, pelo menos teoricamente, à maior profissionalização nos setor, o que evitará necessidade de intervenção estatal neste segmento. Porém, existe a discussão sobre a qualidade do ensino fornecido por estas instituições, dado que são instituições com fins lucrativos. Não está claro o resultado desta discussão, ainda mais porque ela tende a ser mais emotiva do que racional.

diploma

Como o caso Kroton-Anhanguera trata de educação, algo que definidamente não pode ser considerado como um produto qualquer, com impacto em toda a sociedade e no tipo de país que queremos construir, algumas preocupações sobre esta aquisição extrapolam o meio empresarial. Montei a tabela abaixo com algumas razões a favor e contra ao processo de consolidação no segmento de educação. Por exemplo, o que o processo de consolidação em IES impacta na qualidade de ensino?

Aspectos Positivos

Aspectos Negativos

Aumento da concentração no segmento de ensino superior Empresas maiores possuem mais recursos. Foco em metas de curto prazo. Tanto a Kroton quanto a Anhanguera e Estácio são empresas listadas na bolsa de valores com metas de rentabilidade no curto prazo para pagamento de dividendos aos investidores.
Elevação da qualidade do ensino Grupos educacionais maiores podem ser auditados pelo Ministério da Educação mais facilmente do que uma centena de universidades menores.Grupos educacionais maiores podem fazer parcerias técnicas com instituições mais consagradas (USP, Harvard, MIT, por exemplo). A visão educacional pode ser substituída pela visão empresarial. Riscos de redução de custos através de contratação de professores menos qualificados, cancelamento de cursos deficitários, mas que são importantes para a sociedade, tais como ciências humanas e sociais, filosofia, cultura e música, para citar alguns.
Ampliação do acesso à educação superior IES maiores e mais profissionalizadas possuem mais condições de ofertar ensino superior a uma parcela maior da população. Cursos em localidades menores podem fechar unidades de ensino por motivos econômicos.
Utilização de novas tecnologias no ensino, tais como Ensino à Distância Empresas maiores têm mais recursos para investir em TI, ensino à distância, capacitação de professores, por exemplo. Qualidade da educação totalmente através de EaD ainda precisa ser comprovada.

Umas poucas palavras sobre Ensino à Distância (EaD). Depois de um período inicial onde o preconceito e a aversão à novidade imperaram, acho que estamos nos acostumando com a ideia de que EaD pode ser muito benéfica. Alguns exemplos de utilização desta tecnologia fornecidos por universidades de 1ª linha (Harvard, por exemplo), e a Academia Kahn mostram que o conteúdo é mais importante do que a utilização da tecnologia, pois esta serve apenas como meio para chegar aos alunos. Tomo a liberdade de listar algumas crenças individuais (um dos poucos benefícios de ser autor de um blog):

  1. A dedicação de um aluno, esteja ele(a) em uma escola presencial ou virtual, é um fator muito mais importante na qualidade do aprendizado do que o uso intensivo de tecnologia envolvida;
  2. A dedicação de um aluno, seja em escola de primeira linha ou não, é um fator muito mais importante na qualidade do aprendizado do que a “marca” de uma escola. Não me entendam errado aqui, não estou dizendo que todas as escolas são iguais; existem universidades excepcionais e a oportunidade de estudar em uma delas um evento transformador de uma vida, porém a dedicação do aluno ao estudo é o fator mais importante na qualidade da educação que um indivíduo terá.

MOOC-300x189

Seguindo a tradição de deixar perguntas instigadoras, gostaria de saber a opinião de você sobre Ensino à Distância:

1. Vocês acham que EaD é uma inovação de ruptura em educação?

2. Vocês acreditam que EaD será um modelo de ensino com qualidade comparável àquela obtida através de ensino presencial tradicional?

Link para programa de Ensino à Distância patrocinado por pela Universidade Harvard

Link para a Academia Khan.

Link para foto do diploma (site da Contee).

Link para a foto do livro (site www.livrosepessoas.com).

Link para foto de ensino à distância.

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11 comentários sobre “Aquisições no ensino superior, EaD e outras avenças

  1. Maria Beatriz Lisboa disse:

    Sem dúvida EAD é uma inovação. No entanto, não considero que irá se constituir, a longo prazo, como modelo de qualidade comparável ao ensino presencial.

    • Olá Maria Beatriz,

      obrigado pelo teu comentário. Em relação à EaD, acho que a inovação está principalmente no uso de TI e ferramantas colaborativas, porque cursos à distância já existem ha muito tempo.

      Em relação à qualidade dos cursos, sei que EaD ainda está longe de ser comparado ao ensino presencial tradicional. Quem sabe se no futuro os doisterão a mesma qualidade?

      Na minha opinião, o futuro do ensino passará por uma mescla entre ensino presencial e EaD. O que você acha disto?

      Abraços,

      EK

  2. António Muembanza disse:

    Olá, eu sou um defensor do EAD no que tange a sua qualidade. Eu já tive a oportunidade de fazer pós-graduações nos dois sistemas e vos confesso que o EAD é muito mais exigente e difícil que o método presencial.
    No EAD o estudante precisa ser bastante disciplinado na gestão do tempo, no raciocínio critico, na organização do seu aprendizado, pois que ele além de ser um estudante , passará a ser um autodidacta.
    Portanto, o factor determinante é o esforço e o tempo que o estudante dedicara para a sua formação.

    • Olá Antônio,

      Obrigado pelo teu comentário.

      Concordo com você. Independentemente da forma presencial ou virtual, método de ensino ou prestígio da instituição, no final das contas o que mais importa é a dedicação do aluno.

      Abs,

      EK

  3. Edélcio Sardano disse:

    Caro Professor Evódio,
    Muito obrigado pelo excelente artigo. Pontos de suma importância foram abordados e ficou claro que há muito para se refletir a respeito.
    Permita-me manifestar minha opinião sobre a Educação a Distância:
    Um projeto pedagógico, ou melhor, um projeto político-pedagógico deve, necessariamente, ter em vista a formação profissional e também a transformação pessoal do educando, a saber, seus conhecimentos, competências, habilidades e valores.
    Sem querer desmerecer as amplas possibilidades a partir da EaD para a democratização do conhecimento, não me parece que à distância, por melhor que seja a tecnologia empregada, seja possível trabalhar satisfatoriamente questões relacionadas a certas habilidades e menos ainda, valores. Por exemplo, em um curso relacionado a Gestão, como intervir de forma efetiva na questão da liderança? Será que apenas com filmes, imagens, textos, hipertextos, perguntas e respostas, etc. é possível trabalhar, verdadeiramente, aspectos atitudinais de uma pessoa?
    Ainda, será que muito da escassez de profissionais qualificados não decorre da mera transmissão de conhecimentos (presencialmente ou à distância), quando o mercado e a sociedade precisam de profissionais, pessoas, cidadãos, com postura e atitude que atendam suas necessidades?

    • Oi Edélcio,

      obrigado pelos teus comentários. Concordo que EaD possui suas limitações, por isto acho que o ensino presencial (sobretudo em assuntos que necessitam de análise e debates) ainda será fundamental. Por isto, acho que em futuro pouco distante veremos mais cursos mesclados entre EaD e Ensino Presencial. Um exemplo disto é o processo de contratação de profissionais: em um passado recente a seleção/contratação de profissionais era 100% presencial. Hoje utiliza-se mídias sociais para divulgação de vagas e análise de currículos, porém mesmo assim as entrevistas presenciais são fundamentais. Acredito que com ensino ocorrerá da mesma forma. A transferência de conhecimento poderá ser feita através de EaD, mas o desenvolvimento de análise e síntese deverá ocorrer de modo presencial, com professor capacitado. Boa discussão esta Vamos ficar de olho para qual modelo o ensino irá.

      Abs,

      EK

      • Edélcio Sardano disse:

        Caro Professor,
        Assino embaixo de suas palavras. Tive a oportunidade de participar na coordenação de um MBA presencial onde utilizamos recursos de EaD e os resultados foram excelentes. Essa experiência pessoal, somada a relatos que tenho lido, levam-me a entender que os recursos de EaD podem e devem ser incorporados como metodologia de ensino na educação presencial (cursos mesclados, como o senhor diz), mas não são capazes de atender, em plenitude, um projeto pedagógico de maior complexidade. Permita-me indicar o estudo feito por dois pesquisadores do Paraná: http://www.abed.org.br/congresso2011/cd/201.pdf

  4. Valéria Cristina Garcia Cabral disse:

    Professor Evódio
    Primeiramente, parabéns por esta iniciativa.
    Acredito, no mais perfeito sentido da palavra, que EaD se traduz em plena inovação. Sabemos que seus apontamentos são antigos, porém, demonstram uma das formas mais democráticas para transmissão e desenvolvimento de conhecimentos. É inquestionavelmente uma ferramenta que viabiliza e amplia a comunicação, permitindo uma releitura na forma de aprendizado. São tantos os quesitos envolvidos no sucesso da transmissão de conhecimentos que o EaD por si só não deve ser visto como algo que macule o ensino tradicional, mas uma nova forma, uma nova possibilidade de se ajustar às necessidades sociais. Uma grande soma à educação, acredito eu, pois, tudo que viabilize e leve conhecimento é soma e não ofensa. Acreditar que o EaD prejudique o ensino tradicional me parece limitado e míope. No mais, com a velocidade que caminha as necessidades no aprendizado, acredito que o EaD, se já não o estiver, estará em patamar de qualidade idêntico ao ensino tradicional, uma vez que, sabemos, o aprendizado requer antes de tudo, interesse de seus receptores. Onde há interesse há aprendizado, e o conhecimento se instala com todas as suas vertentes e requisitos necessários.

    • Oi Valéria,

      obrigado pela contribuição ao blog. Acho que a EaD poderá tanto complementar o ensino presencial quanto ser uma ferramenta para transformação de pessoas.

      Não sei se todas os assuntos se beneficiarão da mesma forma, do mesmo modo que nem todos os alunos aproveitarão as oportunidades abertas pelo EaD. Vamos ver o que acontece. Assim que eu ler alguma trabalho sobre o assunto, eu publico aqui.

      Abs,

      EK

  5. erika disse:

    Evodio,
    “Um leitor assíduo deste blog me perguntou sobre o futuro das instituições de ensino superior (IES). ”

    Aproveito para perguntar sobre “o futuro das empresas de saúde privada” ou ainda ” o futuro da saúde privada nas grandes capitais”. No município do Rio de Janeiro, a saúde privada está concentrada em 2 empresas: Amil e Unimed Rio.

    O que esperar de uma disputa entre 2? Como enxergar este momento? O que pode vir a acontecer?

    Sugestão:
    “Para Nicz (1989:178) a competição entre as Unimed’s e as medicinas de grupo e seguradoras justifica a concentração das primeiras no interior. A maior penetração das Unimed’s
    em cidades de pequeno e médio porte é associada a baixa capitalização das cooperativas face as empresas capitalistas como as seguradoras e medicinas de grupo e também a maior ou menor competitividade entre os médicos. A disputa entre os médicos nas grandes cidades favorece as medicinas de grupo e seguradoras enquanto as Unimed’s são a opção para onde os meios de produção (médicos) são escassos e tem que ser socializados (Antonio Jorge Kropf –Diretor Médico da AMIL apud Bahia 1991:75). As interpretações baseadas no excesso de médicos nas grandes cidades e carência no interior, no entanto, se escusam de atribuir a devida importância aos padrões de organização dos médicos e sua capacidade de criar alternativas de resistência a um “empresariamento tutelado”. A capacidade de organização e articulação das Unimed’s com as entidades médicas e a adoção de uma aliança com a defesa de um SUS que se baseie fortemente na livre escolha de médicos autônomos parecem variáveis relevantes quando se observa a existência e a magnitude de suas clientelas em cidades de grande e médio porte que concentram recursos assistenciais e segmentos populacionais com altas faixas de renda como em municípios do interior e na própria capital de São Paulo.”
    http://www.ans.gov.br/portal/upload/forum_saude/forum_bibliografias/abrangenciadaregulacao/AA10.pdf

    e
    http://www.fundacaofia.com.br/profuturo/Uploads/Documents/Documentos/FIA%20Report%20Saude%20LATAM_vers%C3%A3o%20eletronica.pdf

    Aguardo sua opinião.
    Erika K.

    • Olá Erika,

      a concentração de fornecimento de um produto ou serviço é quase sempre muito ruim para o consumidor. Em alguns casos muito específicos existe um racional econômico para existir um ou poucos fornecedores; acho que a prestação de serviços médicos não é um destes casos. Como este setor econômico é regulado, caberia ao órgão regulador criar condições econômicas para atrair mais empresas para o segmento de saúde e com isto aumentar qualidade da prestação dos serviços e redução de preços. Não vejo isto ocorrer no curto prazo, haja vista que o setor passa por momento de consolidação.

      Evodio Kaltenecker

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