Microsoft e Nokia: urgência versus razão

Na última semana o mundo de negócios testemunhou mais um movimento estratégico que envolve a entrada de um gigante do setor de software no segmento de celulares e aparelhos eletrônicos voltados para mobilidade. A primeira vista esta ação pode parecer pouco razoável porque o segmento de celulares, aparelhos eletrônicos e tablets é dominado por duas empresas formidáveis – a Apple e a Samsung – e a teoria de planejamento estratégico mostra que raramente faz sentido para uma empresa entrar em onde já existem concorrentes fortes. Porém, a aquisição da divisão de celulares da Nokia pela Microsoft (MSFT) por US$ 7,17 bilhões, pode ser explicada por dois motivos muito simples: tanto a Microsoft precisava mudar rapidamente seu modelo de negócios quanto a Nokia precisava se desfazer de seu negócio de aparelhos celulares, que apresentava desempenho insatisfatório. A Figura 1 apresenta a ascensão e a queda da Nokia.

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Figura 1: valor de mercado da Nokia, em US$ Bilhões. Fonte: WSJ

Para entender qualquer aquisição, uma série de fatores deve ser avaliada e um bom ponto de partida são os motivos pelos quais a empresa compradora deseja a empresa a ser vendida. Primeiro, a Microsoft comprou a divisão de aparelhos móveis da Nokia para permitir sua entrada no segmento de manufatura de aparelhos celulares, um movimento similar à compra da divisão de aparelhos móveis da Motorola pela Google. Segundo, a Microsoft procurou garantir a sobrevivência da Nokia porque oitenta por cento das vendas do Windows Phones (o sistema operacional desenvolvido pela Microsoft para celulares) são para a própria Nokia. A saída do mercado da empresa finlandesa seria um desastre para a própria MSFT. Ou seja, com a aquisição a Microsoft decidiu entrar no mercado de smartphones e tablets.

Do ponto de vista da empresa a ser vendida, uma variável importante a ser analisada são os motivos pelos quais a empresa vendedora decide se desfazer de algum negócio. No caso da Nokia, ela Nokia já comandou quase metade do mercado de smartphones (antes da chegada do iPhone da Apple), mas atualmente seus aparelhos ocupam uma percentagem desprezível do mercado de smartphones. Ou seja, tanto a empresa compradora quanto a vendedora tinham motivos para fazer alguma coisa: Nokia precisava mudar para sobreviver e a Microsoft precisava fazer algum movimento estratégico. A empresa continuaria dominante no segmento de sistemas operacionais e softwares para desktops e notebooks, um mercado decrescente dado que os consumidores preferem acessar a internet através de tablets e smartphonesEvitar a provável falência da empresa, dado que a Nokia perdeu mais de US$ 4 Bilhões em 2012 e não apresentou uma estratégia para sair deste negócio.Como o negócio transforma a empresaPassa a competir com Apple, Samsung e uma multidão de fabricantes chineses de aparelhos de baixo custoNokia se transformará em uma empresa de soluções e redes, que competirá com a Ericsson e Huawei na área de equipamentos.Impacto no valor das ações após o anúncio do acordoCaíram 5 %Subiram 34%

Uma terceira fonte de análise de uma aquisição corporativa são as economias de escopo e de escala que podem surgir com a transação. A MSFT anunciou que após a transação lucrará aproximadamente US$ 40 dólares em cada aparelho vendido, contra menos de US$ 10 dólares que obtém atualmente, em função dos custos de desenvolvimento e marketing que a empresa paga à Nokia. Porém, conforme apontou a agência Reuters (link aqui), a própria Microsoft divulgou que precisará vender mais do que 50 milhões de smartphones por ano para cobrir as despesas de fabricação. Uma meta nada fácil dado que no último trimestre a Nokia vendeu apenas 7.4 milhões de aparelhos. No campo de economias de escala, a Nokia possui aproximadamente 30.000 funcionários enquanto a Microsoft possui em torno de 100,000 pessoas em seus quadros. Levará algum tempo para que os executivos avaliem todas as sobreposições de funções, uma vez que mas em negócios desta natureza sempre ocorrem reduções de equipes.

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Em relação ao preço de venda da Nokia, a Microsoft pagou um múltiplo muito baixo da receita anual da empresa, equivalente apenas a 0,35 das vendas anuais da Nokia. Como comparação, a Google pagou o múltiplo de 0,77 vezes a receita anual da Motorola Mobility, o negócio de fabricação de aparelhos celulares da Motorola (artigo sobre a Google aqui). Estas duas aquisições são comparáveis porque proporcionaram às empresas compradoras a entrada no segmento de fabricação de hardware. Particularmente acho que o tópico mais intrigante no movimento estratégico da Microsoft não foi o valor pago pela Nokia, mas o fato de que a empresa do Bill Gates está apostando seu futuro em uma organização cujo próprio negócio de celulares não é brilhante. Por exemplo, em 2012 a empresa finlandesa vendeu apenas 6% de todos os smartphones vendidos no mundo. É importante lembrar ainda que agora a Microsoft se torna a última grande empresa desenvolvedora de sistemas operacionais para celulares a entrar no segmento de manufatura; a Apple fabrica seus próprios aparelhos celulares e desenvolveu o sistema operacional iOS, ao passo que a aquisição da Motorola pela Google, desenvolvedora do Android, deu à última empresa sua própria divisão de celulares.

Como toda aquisição gigantesca, as chances de sucesso são baixas porque dependerão da Microsoft identificar os ativos mais importantes, vender aqueles que não são críticos para a nova empresa e manter as equipes motivadas enquanto ocorrem demissões. Por fim, será interessante ver como a Microsoft desenvolverá um ecossistema composto de desenvolvedores de aplicativos e fornecedores de componentes em torno de seus aparelhos de celular e tablets.

Deixo uma pergunta para reflexão: O que a Microsoft poderá fazer de diferente para criar um ecossistema de aplicativos em torno dos aparelhos da Nokia?

Fonte da uma do quebra-cabeça aqui

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2 comentários sobre “Microsoft e Nokia: urgência versus razão

  1. Muito interessante o artigo, parabéns! Na minha opniao, o principal motivo da aquisicao foi a expertise em desenvolvimento de hardware…talvez a Microsoft esteja focando em criar um game changer equivalente ao que fez o iPad. E quanto aos smartphones, acho que o melhor seria levantar a bandeira branca e aderir ao Android

    • Oi Felipe,

      concordo com vc, acho que em termos de sistema operacional o melhor que a MSFT pode fazer é aderir ao Android (até porque a hipótese de aderir ao iOS é muito remota). Com respeito ao hardware, acho que a empresa tem pouco chance de criar uma game changer, porque ha anos a MSFT está focada em inovações incrementais. Vamos ver o que acontece. Eu escreverei algo assim que a MSFT fizer algo interessante.

      Abs,

      EK

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