Inovação, Pesquisa e Desenvolvimento de novos produtos em multinacionais brasileiras.

961a9483-de04-4c10-8acd-1129ca9795d3Braskem, Natura, Petrobrás, Vale, Tupy, Tigre, Marcopolo e Romi. Empresas não apenas nacionais, mas com presença internacional. Estamos muito acostumados a ouvir os nomes destas empresas e por isto mesmo não nos damos conta de que o surgimento de multinacionais brasileiras de grande porte é um fenômeno razoavelmente recente. De acordo com um estudo elaborado pela revista Fortune, em 2005 havia apenas três companhias brasileiras entre as 500 maiores empresas do mundo, ao passo que em 2012 oito empresas brasileiras chegaram ao mesmo patamar. A revista Forbes, que publica a lista das 2000 maiores empresas mundiais, mostra que a ascensão das multinacionais brasileiras é ainda mais destacada: enquanto em 2003 apenas três empresas brasileiras estavam entre as 2000 maiores empresas globais, em 2012 havia trinta e uma multinacionais brasileiras no seleto grupo de maiores empresas globais. Como consequência do crescimento recente de empresas multinacionais brasileiras e de suas inserções internacionais se tornarem mais intensas, é importante analisar as fontes de vantagens competitivas das multinacionais que começaram aqui no Brasil. Adicionalmente, como o desenvolvimento de novos produtos é uma capacidade organizacional estratégica das empresas, estudar pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D&i) em empresas internacionalizadas brasileiras é importante para entender a capacidade de competição destas multinacionais.

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Uma pequena introdução sobre internacionalização de empresas….

Alguns pesquisadores se dedicam a estudar os processos de expansão internacional das empresas. Um deles, o importante economista inglês John Dunning, defendeu que as atividades das empresas multinacionais durante seus processos de internacionalização podem ser divididas em quatro categorias: busca por novos mercados, por novos recursos, por eficiência operacional e por recursos estratégicos. Esta classificação, também chamado de Paradigma (ou Modelo) Eclético da Internacionalização, lida com as forças-motrizes (drivers, no original) que levam as empresas a se tornarem multinacionais. Outro modelo de internacionalização nasceu entre os anos 60 e 70, com o surgimento da Escola Nórdica de Internacionalização, também chamado de Modelo de Uppsala. Ao contrário do modelo do Dunning, que via o processo de internacionalização com uma consequência de processos de tomada de decisão baseados em racionalismo econômico, o Modelo de Uppsala defende que o movimento de expansão internacional é o resultado de processos organizacionais de aquisição de competências. O Modelo Nórdico baseia-se no fato de que o crescimento da empresa é consequência de um processo de aquisição de conhecimento e da escassez de oportunidades de crescimento nos mercados nativos às empresas. É importante destacar que apesar de ambos os modelos tratarem de internacionalização, o modelo eclético procura explicar o “por que”, ao passo que o modelo de Uppsala procura explicar o “como” as empresas se internacionalizam.

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Como as multinacionais brasileiras lidam com P&D&i no Brasil e no Exterior?

Tanto o Paradigma Eclético quanto o Modelo de Uppsala buscam analisar os processos de internacionalização desde a ótica de negócios internacionais, porém vários autores procuram descrever internacionalização de empresas dentro de um recorte mais específico: pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e suas interfaces com inovação e engenharia de produtos. Sabemos que muitas vezes as múltis brasileiras possuem centros de pesquisa e desenvolvimento no exterior devido à necessidade de adaptar produtos aos mercados regionais ou locais ou ainda devido a requerimentos regulatórios.

E as configurações organizacionais de P&D e inovação? Como as multinacionais brasileiras lidam com P&D&i no Brasil e no Exterior?

Outro pesquisador, Vittorio Chiesa, estudou centros de pesquisa e desenvolvimento em muitas multinacionais e chegou à conclusão que existem quatro estruturas básicas de pesquisa e desenvolvimento em empresas multinacionais: Centros de Excelência, onde apenas um laboratório é destacado para um mandato global para certa tecnologia; Especialização Sustentada, onde existe um centro de excelência, porém apoiado por uma quantidade de pequenas unidades espalhadas mundialmente fornece informações de mercado para o centro de principal de pesquisa; Estrutura de Rede, onde uma rede dispersa de laboratórios em países diferentes trabalham no mesmo projeto de P&D, e Contribuintes Especializados, no qual cada unidade contribuidora é especializada em uma ou poucas disciplinas e contribui no desenvolvimento de uma parte da P&D, cuja gestão e controle são responsabilidade de um centro integrador.

Quando classificamos as multinacionais brasileiras de acordo com as categorias acima, percebemos algumas características bastante específicas das múltis brasileiras. Por exemplo, as estruturas Centro de Excelência (apenas um laboratório responsável por P&D) e Contribuidores Especializados (muitos laboratórios responsáveis por partes do P&D) são as mais utilizadas pelas multinacionais brasileiras, ao passo que as estruturas Especialização Sustentada e Estrutura de Rede são menos utilizadas.

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Outra lição que aprendemos quando estudamos as empresas brasileiras mais internacionalizadas é que existem empresas de setores diferentes que usam estruturas organizacionais de P&D distintas. Por exemplo, as multinacionais brasileiras do setor farmacêutico e de tecnologia da informação utilizam exclusivamente a estrutura de  “Contribuidores Especializados”, o que contrasta com a situação das empresas de Alimentos, Cerâmicos e Vestuário & Calçados, que utilizam exclusivamente os laboratórios centralizadores de P&D (ou como falamos anteriormente, os “Centros de Excelência”). À primeira vista parece que empresas mais intensivas em tecnologia necessitam utilizar estruturas mais complexas de P&D.  Este assunto merece um artigo específico sobre o tema, o que faremos em um artigo específico a ser publicado em breve.

Fica aqui uma provocação para os leitores mais curiosos: Em se tratando de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, qual seria a empresa brasileira mais inovadora? 

Deixo abaixo algumas sugestões de leitura, sobre internacionalização de empresas e multinacionais brasileiras.

AMATUCCCI, M., AVRICHIR, I. (2008), Teorias de negócios internacionais e a Entrada de Multinacionais no Brasil de 1850 a 2007. Revista Brasileira de Gestão de Negócios. São Paulo, v.10 , n. 28 p234-248, 2008

BIRKINSHAW, J. HOOD, N. & JONSSON, S. Building firm-specific advantages in multinational corporations: the role of subsidiary initiative. Strategic Management Journal. v.119, p 221–242, 1998

BORINI, F. M. & OLIVEIRA JUNIOR, M. M. Transferência de conhecimento em Multinacionais emergentes: survey com as multinacionais brasileiras. Espacios. v. 30, p. 13-27, 2009.

CHIESA, V. Global R&D Project Management and Organization: A Taxonomy. Journal on Production Innovation Management.v.17, n5, p341–359, 2000.

DUNNING, J. The eclectic paradigm of international production: a restatement and some possible extensions. Journal of International Business Studies, 19(1),1-31, 1988.

FLEURY, A.C.C & FLEURY, M.T.L. Brazilian Multinationals – Competences for Internationalization. 1 ed. Cambridge, Cambridge University Press, 2011

GALINA, S. V.R., MOURA, P.G.D, Internationalization of R&D by Brazilian Multinational Companies. International Business Research; v6, n8; 2013

PENROSE, E. The theory of growth of the firm. London, Basil Blackwell. 1959

WELCH, L.S. and LUOSTARINEN, R. Internationalisation: Evolution of a Concept. Journal of General Management 14(2): 34–55. 1988

Fonte da figura 1 aqui; link para figura 2 aqui; fonte da figura 3 aqui.

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7 comentários sobre “Inovação, Pesquisa e Desenvolvimento de novos produtos em multinacionais brasileiras.

    • Oi Jeannette,

      Obrigado por tua contribuição ao blog. Sim, é verdade, tanto a Natura quanto a Avon investem muito em P&D, sobretudo porque o mercado em que elas estão é muito dinâmico, com ciclos curtos de lançamento de produtos. Não incluí a Avon no texto porque preferi analisar empresas multinacionais brasileiras.

      Abs,

      Evodio Kaltenecker

  1. Luiz Fernando de Barros Scholz disse:

    Interessante seu artigo, caro Evodio.
    Mas acredito que muito poucas empresas nacionais, mesmo a citadas, disponham de P&D compatível com as grandes empresas e multinacionais mundiais. Todo investimento em P&D, pesquisa pura e com suas derivações em pesquisas aplicadas vão gerar tecnologias e patentes e é irrisório as patentes nacionais. A maioria das empresas multinacionais brasileiras operam em segmentos ‘primários’: aços, carnes, minérios, grãos e outros, todos commotizados.
    Talvez a única de sua relação seja a Marcopolo.
    A Natura, conseguiu se reinventar com a sustentabilidade de novos produto naturais, mas não consegue ter o mesmo sucesso no exterior; suas experiências na AL. deixam a desejar. E este segmento é um dos que mais investem em P&D, com grandes players .
    A Petrobrás tem um P&D em exploração de petróleo em águas profundas, mas consegue desde o seu reaparelhamento politico destruir riqueza, com presidentes que não estariam empregados em empresas privadas. O processo de desinvestimento, os investimentos em refinarias onde não detém tecnologia para refinar e sua última refinaria foi na década de 80. Os investimentos nos ‘bolivarianos’ onde a nacionalização realizou estragos no balanço.
    A Vale faz caixa exportando commodity, qdo. o valor do minério sobe,, com uma gestão subordinadas ao fundos de pensão das estatais. Qual o valor investido na Argentina?
    O artigo de Fernando Reinach, Curando a malária com açúcar (OESP 18.04.2013, pg.A25) talvez demonstre bem o que é inovação como resultado de investimentos em P&D.
    Parabéns pelo artigo!
    Abs,

    Luiz Fernando de Barros Scholz

    • Olá Luiz Fernando,

      obrigado pela comentários, totalmente pertinentes. Como o processo de internacionalização das multinacionais dos países BRICS é tardio em comparação aos processos das multinacionais de países industrializados, mesmo as empresas de maior sucesso (algumas das quais foram comentadas pelo Sr.) ainda estão aprendendo a regra do jogo. No caso da Natura eles estão buscando a expansão internacional com algumas idas-e-vindas, inclusive através de crescimento inorgânico (por exemplo, com a aquisição de uma empresa na Austrália). Petrobras e Vale com interferências políticas são exemplo de como o processo de internacionalização pode ser prejudicado, infelizmente. BNDES ajudando formando as “campeãs nacionais” sem grandes critérios técnicos também não incorpora credibilidade ao movimento de expansão internacional de empresas brasileiras. O assunto é complexo e por isto me fiquei interessado nele. Escreverei em alguns dias mais alguns artigos sobre o tema.

      Abraços,

      Evodio Kaltenecker

  2. Lucas Junior Teodoro disse:

    Boa tarde,
    Muito interessante o artigo, pois além de fazer uma excelente introdução a P&D&i, ainda nos faz refletir sobre onde enquadrar nossas empresas.
    Senti a falta da WEG e da Embraer no artigo. Não estariam elas nesse conjunto de empresas internacionalizadas com investimentos em P&D&i?

    Abraços.

    • Olá Lucas,
      sim tanto a WEG quanto a Embraer possuem centros de P&D e por isto estão no conjunto de empresas multinacionais brasileiras com investimentos em P&D&i. Elas não foram citadas explicitamente porém fizeram parte do estudo que originou o post. Elas também aparecem em diversos rankings de empresas multinacionais. São exemplos para a indústria nacional. Abs, E.K.

  3. lucio de araujo torres jr disse:

    acho que deveriamos ser mais unidos os povos e a familia para trazer e abrir mais firmas multinacionais tipo coca- cola .elma chips .pecas de carros bicicletas .mais setores da nestle plantacoes etc japan beverage .que eh maquinas de refrigerantes com moedas e notas teriamos mais holerits para as familias por que o banco central faz a parte dele mais esta falho pessoas desempregadas desorientadas gasolinas e combustivel com o preco altissimo dificil locomocao das pessoas para a abastanca e uma medida de melhora eh em trem de transporte novo de sp capital para o interior ligando cidades maiores como bauru rio preto aracatuba campinas lins etc geraria empregos 3 turnos de trabalho shopings e clinicas de saude supermercados fortalecidos e organizados conveniencias mais distribuidos para pagar as contas e se divertir e lanchar os jovens os que ja tem as suas casas e comercio terem credito e capital de giro comprovacao bancaria etc para que tambem possa empregar e dar melhoras as pessoas capacitacao no setor da saude e bem estar mais confeccao de fraldas leite infantil meias apoio pro agricultor pequeno porte ou aposentado fazendo assim diminui as doencas e a pobreza as cidades ficariam mais bonitas com arrozais milharais legumes em geral assim climatizando frutas tambem necessario

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