Seis razões que tornaram a Microsoft uma empresa estagnada e os desafios que ela terá no curto prazo.

decadencia msft

Agosto de 1995. A fila de clientes para comprar o recém-lançado sistema operacional da Microsoft, o Windows 95, era gigantesca. As recém-lançadas funcionalidades (aceitação de nome de arquivos com 255 caracteres, botão Iniciar, barra de tarefas) impressionavam tanto os aficionados por computadores que eles esperavam por horas para comprar o produto da então empresa dominante no mundo de computadores pessoais. Contudo, como um sistema operacional é uma plataforma razoavelmente invisível para o usuário comum dado que ele apenas faz a interface entre hardware e outros softwares com os quais os usuários têm contato, uma pergunta comum naquela época era: Porque uma pessoa ficava horas em uma fila à espera de um produto com a qual pouco interagia? Esta obsessão por um sistema operacional mostrava a importância da Microsoft e a paixão que ela causava naquela década.

Abril de 2010. Em frente às lojas da Apple ao redor do mundo se formam filas quilométricas para comprar o iPad, o mais novo lançamento da Apple. Uma diferença marcante porque agora os entusiastas de aparelhos eletrônicos esperam por horas para comprar aparelhos com sistemas operacionais iOS.  

Agosto de 2013. A Microsfot anuncia que seu principal executivo, Steve Ballmer, deixará o comando da empresa em aproximadamente um ano.

O que aconteceu de tão drástico que fez com que uma empresa dominante como a Microsoft se tornasse uma organização estagnada, identificada como desenvolvedores de produtos desinteressantes e irrelevantes? Naturalmente, uma queda tão intensa não pode ser atribuída a poucos fatores e uma pesquisa na mídia especializada aponta as seguintes causas da decadência da Microsoft, que descrevo a seguir:

 1.       Perda da onda da mobilidade

Desde 2007, com o lançamento do primeiro iPhone, a Microsoft (MSFT) não tem sido capaz de perceber a crescente necessidade de usuários por mobilidade. A desatenção de empresa com a demanda por dispositivos móveis, com capacidade de informar, entreter e solucionar pequenos problemas diários através de aplicativos foi um fator fundamental para a redução da importância MSFT.  A companhia fundada por Bill Gates não ignorou apenas os smartphones, mas toda a família de produtos conhecidos com tablets, e como consequência ela desenvolveu tardiamente seu sistema operacional para esta categoria de produtos. Deste modo o Windows Phone possui atualmente uma presença pequena, de aproximadamente 5%, no mercado de sistemas operacionais para celulares e tablets.

Uma prova da falta de percepção da Microsoft foi a seguinte frase de Steve Ballmer, que em 2007 respondeu a uma pergunta sobre o iPhone, lançado há pouco tempo: “É o aparelho celular mais caro da história e não terá sucesso com clientes corporativos porque não possui teclado

 2.       Manutenção do foco em um mercado decrescente

Outro argumento que possivelmente explica a decadência da empresa baseada em Redmont é seu foco praticamente exclusivo em um mercado que apresentava contínuos sinais de fraqueza: o mercado de computadores pessoais estáticos. Apesar de possuir uma situação dominante nesse segmento, a Microsoft necessitava expandir seus negócios para outros mercados dado que cada vez menos as pessoas compram computadores de mesa, sejam notebooks ou desktops. Como a empresa perdeu a onda dos dispositivos móveis, ela precisa urgentemente identificar a nova categoria de produtos que encantará consumidores. Alguns especialistas sugerem a categoria de computadores embutidos em roupas e acessórios, tais como relógios, óculos e mochilas.

 3.       Incapacidade de recuperar o tempo perdido.

MSFT não conseguir recuperar o tempo perdido. Seu tablet, o Surface RT, simplesmente foi ignorado por consumidores e causou perdas contábeis de quase US$ 900 milhões no fim do segundo trimestre de 2013. Ou seja, a empresa errou não apenas quando não reconheceu uma nova categoria de produtos, mas também quando não soube desenvolver produtos para a mesma. Errou no timing, no entendimento do gosto de clientes e na execução.

4. Saída tardia do CEO (Chief Executive Officer)

BallmerVários especialistas que acompanham o segmento de tecnologia acreditam que Steve Ballmer, o histriônico e muitas vezes caricato CEO da empresa deveria ter saído antes. O próprio Ballmer anunciou seu afastamento da empresa em Agosto deste ano e o anúncio do novo(a) executivo(a) principal da empresa para o fim do primeiro semestre de 2014. Neste mesmo dia, as ações da empresa subiram aproximadamente 6%, o que prova que os investidores ficaram gratos com o anúncio da substituição do atual presidente por outro.

 5.       Redução do valor da empresa

Uma evidência da estagnação da Microsoft é a redução do valor de mercado da empresa. Quando Ballmer assumiu o papel de executivo principal o valor de mercado da Microsoft era próximo a US$ 600 Bilhões, ao passo que atualmente vale “apenas” US$ 270 Bilhões, uma queda que mancha o currículo de qualquer executivo. Paradoxalmente, ao nível pessoal o executivo se tornou extremamente rico dado que sua fortuna pessoal é de mais de US$ 10 bilhões, devido aos 4% de ações da Microsoft que ele possui.

caindo

 6.       Incapacidade de desenvolver o próximo presidente.

Por fim, outro aspecto negativo da gestão da empresa foi sua incapacidade de desenvolver seu próximo CEO. Devido às constantes reorganizações que Ballmer promoveu na organização não está claro que o próximo presidente será escolhido dentre os atuais executivos da empresa.  Isto ocorre porque a maioria dos potenciais candidatos deixou a instituição devido às constantes mudanças organizacionais. Segundo uma fonte interna que preferiu o anonimato, a diretoria da Microsoft era chamada de “Ballmer e seus doze anões” devido à saída de tantos executivos sêniores cansados com as constantes mudanças de cadeiras. Ou seja, não restaram de fato muitos executivos com experiência necessária para assumir o principal posto da empresa.

Independentemente do nome que assumir o principal posto da Microsoft, provavelmente ele(a) deverá possuir uma característica muito específica: ser focado(a) no desenvolvimento de novos produtos, o que contrasta com a principal característica de Steve Ballmer, que é reconhecido com um grande executivo de vendas. Como afirmou Steve Jobs em uma entrevista para Walter Isaacson, sobre a crescente irrelevância da Microsoft: “Quando um sujeito de vendas assume uma empresa, os executivos orientados a produtos perdem importância e muitos deles deixam a organização. Isto ocorreu quando Ballmer assumiu a Microsoft. Eu não acho que a empresa vai mudar enquanto ele estiver liderando a companhia”. O que Jobs havia percebido é que há muito tempo a Microsoft precisava de um líder capaz de criar os novos motores de crescimento, ou seja, os próximos Windows e Office, e não apenas vender mais dos produtos já existentes. Assim, é possível que MSFT esteja entrevistando executivos de fora da organização, que sejam orientados ao desenvolvimento de novos produtos.

O provável processo de busca de executivos externos tem se tornado fenômeno comum nas empresas que foram ícones nos anos 90. Por exemplo, a Yahoo! tirou Marissa Mayer da Google (ver artigo sobre este fato aqui) e a HP contratou Meg Whitman (ex-eBay). Outra empresa que dominou o mercado de desktops nos anos 90 e que precisará de mudanças profundas é a Dell, que fechou seu capital para tomar decisões estratégicas drásticas, como por exemplo sair do mercado de desktops. Este processos foram originados nos anos 80, quando a empresa-símbolo de tecnologia de informação da época – a IBM – contratou Lou Gestner, um executivo que não possuía experiência no segmento de TI e que transformou radicalmente a empresa, que deixou de ser uma fabricante de hardware para se tornar uma prestadora de serviços e consultoria.

Em se tratando dos desafios do(a) próximo(a) CEO, alguns deles são bem claros em função das informações disponíveis. Ele(a) deverá:

  1. Reestruturar a empresa, talvez até mesmo colocando em risco algumas de suas galinhas dos ovos de ouro, tais como a sistema operacional Windows e o pacote Office;
  2. Integrar a divisão de mobilidade da Nokia, adquirida em Setembro de 2013 (ver post aqui). Note que a aquisição desta unidade de hardware é uma cópia do mesmo movimento feito pela Google, que comprou a unidade de dispositivos móveis da Motorola em 2012; ver post aqui)
  3. Evitar a fuga de talentos, um fato muito comum durante a gestão do Steve Ballmer.
  4. Manter a forte presença que a empresa possui no segmento corporativo enquanto desenvolve uma estratégia para o segmento de consumo.

Fica aqui a pergunta de alguns bilhões de dólares: Se você fosse o(a) novo(a) CEO da Microsoft, o que você faria, tanto no curto quanto no médio prazo?

Fonte da imagem da vidraça quebrada aqui; fonte da imagem do Ballmer aqui; fonte da figura com queda das ações aqui. Post sobre aquisição da Nokia Mobility aqui

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2 comentários sobre “Seis razões que tornaram a Microsoft uma empresa estagnada e os desafios que ela terá no curto prazo.

  1. Lucas Junior Teodoro disse:

    Realmente análises impecáveis!
    Este blog já é um dos maiores achados que tive sobre análises, estratégias e mercados.
    Muito obrigado!

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