Processos evolutivos: Internacionalização e P&D

Em artigo publicado na Revista de Administração de março de 2013, as professoras Priscila Costa e Geciane Porto avaliaram o estágio de maturidade de três empresas multinacionais brasileiras em relação aos seus processos de P&D. Através de uma abordagem qualitativa (também chamada de interpretativa, ou seja, sujeita ao viés dos pesquisadores), as autoras chegaram à conclusão que as empresas analisadas estão em fases diferentes de internacionalização. De acordo com as entrevistas realizadas pelas pesquisadoras, uma das empresas nacionais, a TIGRE, apresenta estrutura embrionária enquanto outras duas empresas, WEG e EMBRACO apresentam configurações que oscilam entre a intermediária e a madura. Esta afirmação é importante porque explica que o conceito de internacionalização de uma empresa não é algo descontínuo (ou em uma linguagem mais matemática “uma ideia polarizada entre dois extremos”). Na verdade, o grau de internacionalização de uma multinacional é um continuum no qual as empresas podem apresentar maior ou menor nível de exposição internacional. As características de cada fase estão resumidas na Tabela 1.

Fase Características das estruturas de P&D de empresas brasileiras
Embrionária Estabelecimento de Joint Ventures no exterior e fatores mercadológicos e logísticos motivam a internacionalização produtivaEstratégia de inovação fundamental é a realização de benchmarking tecnológico.
Intermediária Empresas são adquiridas no exterior, o que permite acesso facilitado a componentes importados utilizados no P&DForças motrizes para internacionalização é o atendimento às especificações técnicas internacionais
Madura Plantas próprias são construídas no exterior, fatores tecnológicos passam a motivar a internacionalização.Atividades de P&D são descentralizadas mediante uma coordenação global.
 Tabela 1 – características das três fases de maturidade de internacionalização de P&D, de acordo com Costa & Porto (2013)

imagem 2

Um aspecto importante dos trabalhos apresentados neste blogue – Chiesa (2000), Fleury & Fleury (2013), Galina & Moura (2013) e Costa & Porto (2013) – é que, apesar de os textos terem sido escritos por autores diferentes em períodos distintos, os trabalhos possuem relacionamentos conceituais interessantes entre si. Por exemplo, a análise dos tópicos cobertos em cada texto identifica alto grau de convergência temática, de modo que os artigos podem ser vistos como um cluster conceitual em relação ao assunto internacionalização de pesquisa, desenvolvimento e inovação. A Tabela 2 apresenta os resultados desta análise e pode-se ver que os quatro trabalhos estudados tratam tanto de internacionalização de multinacionais quanto de Pesquisa, Desenvolvimento e inovação, ao passo que apenas Chiesa não aborda multinacionais brasileiras.

 

Tópicos abordados Chiesa   (2000) Fleury & Fleury (2013) Galina & Moura (2013) Costa & Porto (2013)
Multinacionais Brasileiras Não Sim Sim Sim
Internacionalização Sim Sim Sim Sim
P&D&i Sim Sim Sim Sim
 Tabela 2 – tópicos abordados por cada artigo analisado

Os quatro artigos convergem para o estudo de pesquisa, desenvolvimento e inovação em multinacionais, ainda que cada um deles possua um enfoque específico. Se por um lado Chiesa (2000) estuda internacionalização de P&D em empresas multinacionais intensivas em tecnologia e de países mais industrializados, por ouro lado Fleury & Fleury, Costa & Porto e Galina & Moura possuem como área de interesse comum o estudo mais específico de internacionalização de P&D e inovação em empresas multinacionais brasileiras. A Figura 1 apresenta graficamente as áreas de interface teórica-conceitual de cada artigo.

 

 

figura relação entre artigos v2

Figura 1 – Relação conceitual dos artigos citados no blogue

 

De modo a destacar as principais características entre cada artigo, a Tabela 3 apresenta um quadro comparativo com as principais características de cada artigo analisado neste trabalho.

 

  Chiesa (2000) Fleury & Fleury (2013) Galina & Moura (2013) Costa & Porto (2013)
Objeto de estudo 12 multinacionais de setores intensivos em tecnologia e oriundas de países industrializados. 61 multinacionais brasileiras 7 multinacionais brasileiras com unidades manufatureiras no exterior e com P&D 3 multinacionais brasileiras do setor industrial, que possuem unidades produtivas no exterior e parcerias tecnológicas com universidades e institutos de pesquisa
Abordagem Qualitativa Quantitativa Qualitativa Qualitativa
Método de pesquisa Multicaso Survey Multicaso Multicaso
Objetivo da pesquisa Estudar a gestão de organização de projetos globais de P&D em multinacionais e propor taxonomia para tais organizações. Identificação de quatro abordagens para a inovação, competências que capacitam cada uma delas e efeitos do país-de-origem sobre estas competências. Comparar o processo de internacionalização de P&D entre multinacionais brasileiras e internacionais para verificar se existem diferenças entre seus processos de internacionalização Propor uma tipologia genérica para internacionalização de P&D interno e externo
Base teórica Gestão de projetos de P&D em ambientes internacionais.Centralização vs. integração de atividades de P&D em uma rede de unidades de pesquisa. Desenvolvimento de competências organizacionais e efeitos Country-of-Origin. que impactem o processo de inovação em organizações internacionalizadas.Uma empresa é uma arquitetura de competências organizacionais, porém deve ser capaz de adaptá-las com o tempo. Razões para internacionalização de P&D: transferência de tecnologia da matriz para subsidiária; resposta à pressão dos países-alvo; aperfeiçoamento de relações internacionais; acesso à tecnologia e inovação; redução de custos de desenvolvimento  acesso à mão de obra qualificada Processos estratégicos de internacionalização de empresas multinacionais e de suas atividades de P&D.Ótima revisão bibliográfica sobre internacionalização e P&D
Conclusões da pesquisa Existência de quatro estruturas diferentes: centro de excelência, especialização apoiada, estrutura de rede, contribuintes especializados.Estruturas de P&D baseadas em integração requerem esforços de coordenação mais fortes do que as baseadas em especializaçãoTransferência de resultados é facilitada em estruturas baseadas em integraçãoEm geral, estrutura baseada em integração é mais custosa, porém este custo é parcialmente compensado pelos custos de transferência mais baixos. Existência de tipos de inovação que proporcionam competitividade às multinacionais brasileiras:

  • Desenvolvimento de modelos de negócios;
  • Customização de produtos e serviços para nichos de mercado;
  • Desenvolvimento de produtos demandados pelas cadeias globais de valor, e
  • Inovações radicais em engenharia de processo para competir em mercados de commodities
Identificação de principais fatores para internacionalização de P&D em multinacionais brasileiras:

  • Monitoramento (corporativo) das necessidades dos clientes
  • Adaptação para satisfazer requerimentos locais
  • Atender padrões locais/regionais ou certificações
  • Responder a nichos de mercado locais específicos
  • Acesso à tecnologia através de cadeia de suprimento
  • Busca por mão de obra qualificada
  • Aquisição de companhias estrangeiras com competências tecnológicas
Tipologia que apresenta três estruturas para internacionalização de P&D interno e externo: estruturas embrionárias; intermediárias e maduras.
TIGRE apresenta estrutura embrionária.
WEG e EMBRACO apresentam configurações que oscilam entre a intermediária e  a madura.
Limitações dos artigos O autor não avaliou que a cultura organizacional das empresas pode facilitar ou prejudicar a descentralização de P&D e este fator não foi considerado na proposta de estruturas organizacionais (limitação autodeclarada no texto) Desconhecimento sobre a relação de causa vs. consequência entre os processos de internacionalização e de inovação; o desenvolvimento de capacidades inovadoras pode começar antes ou depois do processo de internacionalização, ou até mesmo não possuir relação com o processo de internacionalização das multinacionais brasileiras Por ser um estudo de multicasos, os resultados não podem ser generalizados (limitação autodeclarada no texto)Consideração da Embraco como multinacional brasileira é questionada por alguns pesquisadores Número muito pequeno de empresas analisadas e seleção por conveniência (limitações autodeclaradas no texto)
Tabela 3 – principais características dos artigos analisados

 

Como podemos ver, as multinacionais brasileiras apresentam muitas oportunidades de pesquisa pura e aplicada. É um campo moderno, interessante e com oportunidades para desenvolvimento de trabalhos.

 

Como de costume, deixo aqui uma pergunta provocativa:

1. Em se tratando de multinacionais brasileiras, o que é desenvolvido primeiro: abertura de novos mercados internacionais ou  Pesquisa & Desenvolvimento?

 

Referências Bibliográficas

CHIESA, V. Global R&D Project Management and Organization: A Taxonomy. Journal of Production Innovation Management.v. 17, n. 5, p341–359, 2000.

COSTA, P. R., PORTO, G. S. Proposição de uma tipologia para a internacionalização de P&D interno e externo nas multinacionais brasileiras. Revista Administração v.4.n1 p145-164 2013

FLEURY, A.C.C., FLEURY, M.T.L, BORINI, F.M. The Brazilian Multinational´s Approaches to Innovation.Journal of International Management.v.19 p260-275, 2013.

GALINA, S. V.R., MOURA, P.G.D, Internationalization of R&D by Brazilian Multinational Companies.International Business Research; v.6, n8; 2013

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2 comentários sobre “Processos evolutivos: Internacionalização e P&D

  1. Luiz Fernando de Barros Scholz disse:

    Parabéns pelo texto e análise dos trabalhos.
    Mas fica evidente que no universo de empresas brasileiras a internacionalização nada tem a ver com P&D, em vista de não existirem patentes depositadas nem no Brasil, quanto mais no exterior. A internacionalização é uma via de expansão territorial do “mesmo” em terras estrangeiras; não são empresas que no exterior impactam o mercado com produtos “inovadores”.
    Também é importante a diferenciação entre P&D e inovação, pelos parâmetros do Manual de Oslo, em que “cópia” de produtos existentes em países desenvolvidos é considerado inovação em países ‘em desenvolvimento”, principal exemplo são os medicamentos genéricos. Se formos acrescentar os 4 fundamentos: produto, processo, marketing e processo organizacional em nenhum desses temos propriedade e diferenciação nacional e internacional.
    As empresas que utilizam P&D no Brasil, com pesquisa básica e disruptiva, são restrita e entre as principais enumero: Embrapa e Embraer. Também é importante ressaltar no Brasil existem linhas para P&D, embora como todo o processo burocrático do MCT&I e dos escolhidos pelas programas e linhas do BNDES; que como a Petrobrás também foram ‘aparelhados” pelo governo em seus 12 anos no poder.
    O tema é importantíssimo para o futuro do país, em vista de os escolhidos já terem decido anos atrás como participar do seu lugar no futuro, haja visto a Coréia do Sul (década de 70 era mais atrasada que o Brasil), e a educação que é fundamental para esta transição e para
    garantir um lugar no futuro com protagonismo e com tecnologia, esteja renegada e totalmente abandonada e utilizada politicamente em programas populistas.
    Exportar alta tecnologia deixando as commodities para produção de outros países, com as contigências ambientais, e focar o desenvolvimento em P&D, em fábricas sem “chaminés”; em pesquisadores e cientistas nacionais que vejam possibilidades profissionais nesta escolha profissional. As linhas de P&D serem menos direcionados aos escolhidos, como acontece no Vale do Silicio, as escolhas se baseiam nos projetos e na meritocracia dos envolvidos; mesmo a maioria não obtendo os resultados e não correspondendo as expectativas de sucesso.
    O tema é vasto, importante mas necessita de objetividade sem nacionalismos. O paradigma de país do futuro, dia a dia esta sendo quebrado, para o de ser um mero participante desta globalização, sem nenhum protagonismo.

    • Olá Luiz,

      grato pelos comentários. Você abordou vários temas: direcionamento estatal por critérios não meritocráticos, aparelhamento do Estado, falta de projeto de uma Nação. Difícil discordar dos teus pontos.

      Abs,

      E.K.

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