Governança em Cadeias Globais de Valor (GVC)

wordcloud governanceDois aspectos centrais na análise de cadeias de valor são: a governança da cadeia e possibilidade de upgrading de seus participantes. Enquanto a governança procura explicar como a cadeia é controlada e o valor, a rentabilidade e o poder são assimetricamente distribuídos entre os participantes, o upgrading visa explicar o caráter dinâmico dos fornecedores, ou seja, como eles incorporam novas tarefas mais rentáveis ou até mesmo mudam de atividades dentro da cadeia. Neste artigo comentarei alguns aspectos sobre a governança e no artigo seguinte o upgrading será abordado.

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Cadeias lideradas pelos compradores vs. lideradas pelos produtores

A análise de GVC foca na dinâmica comercial entre empresas em diferentes segmentos da cadeia produtiva, fato que levou a uma distinção importante feita por Gereffi (1994). Cadeias globais de valor podem ser dois tipos: as lideradas pelos compradores (Buyer-Driven Chains) e as lideradas pelos produtores (Producer-Driven Chains)

Em geral, as cadeias lideradas pelos produtores são lideradas por fabricantes internacionais buscando integração vertical para garantir propriedade e controle. Indústrias representativas são as de recursos naturais (petróleo, mineração, agribusiness), bens de capital e bens de consumo duráveis. Por outro lado, as cadeias lideradas pelos compradores são lideradas por varejistas que buscam integração da rede, melhoria da logística e administração das relações de confiança. Exemplos incluem Sears, Nike, Gap, and Wal-Mart.

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Governança em GVC

O conceito de governança é central na análise de GVC porque em qualquer ponto da cadeia é necessário algum grau de coordenação, de modo que sejam tomadas não apenas decisões como ‘o quê’ e ‘como’ mas algumas vezes também ‘quando’, ‘por quanto’ ou mesmo ‘a que preço’. Segundo Gary Gereffi, John Humphrey e Timothy Sturgeon (2005) a governança de uma cadeia significa “a autoridade e relações de poder que determinam como os recursos financeiros, materiais e humanos são alocados e fluem dentro da cadeia” e se apresenta como uma coordenação não-mercado da atividade econômica. O destaque aqui é que a governança de uma cadeia é conduzida por uma empresa líder que utiliza tanto seu poder de mercado (via market-share) quando seu posicionamento na cadeia para criar e/ou apropriar altos retornos.

A estrutura de governança, em oposição às relações diretas entre empresas e seus fornecedores, surge a partir de duas necessidades distintas: i) a crescente complexidade de produtos (e serviços), que exige coordenação de muitas empresas, desde a concepção, desenvolvimento, criação e entrega de uma solução para um cliente, e ii) a maior exposição de uma empresa às falhas de seus fornecedores.

O estudo da governança de uma cadeia leva à análise do papel da empresa-líder que, mesmo sem possuir relações de propriedade (por exemplo, controle acionário ou vínculos matriz-subsidiária) em relação aos participantes influencia a partição de valor entre os membros. Gibbom, Bair e Ponte, em artigo introdutório à edição especial de 2008 da Economy and Society sobre GVC, analisaram três diferentes interpretações de governança de cadeias, a saber, dirigidora, coordenadora e normalizadora.

  1. Governança como direção da cadeia: Nesta abordagem, os autores que apresentam os conceitos de cadeias dirigidas pelos produtores e cadeias dirigidas pelos compradores. Enquanto no primeiro caso a cadeia é dirigida por empresas líderes que tendem a ser manufaturas com integração vertical, no segundo caso a cadeia ela é governada por empresas que se tornaram especialistas em projeto, gestão de marcas e marketing.  O poder deste tipo de empresa emana dos relacionamentos entre empresas e não pela barreiras de entrada que surgem dos requerimentos de capital ou hierarquia formal entre empresas.
  2. Governança como coordenação da cadeia: Fica claro que esta interpretação não se refere apenas às estratégias e ações de alguma firma em particular, mas sim à coordenação entre a empresa líder e seus fornecedores de primeiro nível. Deste modo, a mudança de tipologia simplista de cadeia produtor/comprador para os modelos mais sofisticado de cinco tipos de GVC mostra que governança de cadeia está relacionada com coordenação ao longo de todos os elos cadeia e não apenas imposição de padrões de qualidade, preços e metas.
  3. Governança como normatização da cadeia: esta abordagem está relacionada com a regulação (ou normatização) da relação entre compradores e fornecedores. A governança, sob o enfoque da normatização, fornece vocabulário comum para o desenvolvimento das ações que os compradores devem tomar e especifica os padrões de qualidade que os fornecedores devem cumprir. Ou seja, empresas líderes das cadeias tipicamente definem padrões de fornecimento, padrões de qualidade e apoiam os fornecedores para que eles atendam a estes padrões de modo que participem das GVC controladas por estas empresas líderes

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Pergunta Final: Quais seria a principal deficiência da análise da GVC?

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