Um dragão longe de casa: O aumento da influência chinesa na América Latina e as razões para a colaboração Sul-Sul

Nos últimos anos o mundo testemunhou o impressionante crescimento da influência chinesa na América Latina, não apenas pelos contratos de alto impacto na mídia com também pelos investimentos em larga escala em infraestrutura: trocas de petróleo por dinheiro em espécie com a Venezuela, altos volumes de importação de commodities do Brasil e da Argentina e investimentos diretos no Brasil, Peru, Argentina e Equador. Se levarmos em conta que até recentemente a América Latina não era uma zona de influência chinesa (como são o centro e o sudeste da Ásia, por exemplo), surgem algumas questões importantes: Quais as razões para tais movimentos estratégicos e geopolíticos? O que a China busca na América Latina?

Primeiro, a China está preenchendo o vazio deixado pela decrescente influência norte-americana na região. Estado Islâmico, Rússia e o conflito Israel-Palestina demandam muito mais atenção e energia do que os países ao sul do continente americano. Segundo, a fraca liderança regional. Tanto o Brasil – principal economia –, quanto o MERCOSUL – bloco de comércio regional -, não fornecem opções de crescimento para as economias latino-americanas.   Deste modo, a China apenas se aproveita dos espaços livres deixados pelos líderes regionais. Terceiro, existe um viés populista-esquerdista de governos atuais. Maduro (Venezuela), Kirchner (Argentina), Dilma (Brasil), Correa (Equador), Morales (Bolívia) e Humala (Peru) frequentemente viram suas costas para as tentativas de maior comércio, intercâmbio e integração com os Estados Unidos. Quarto, as multinacionais chinesas seguem o conhecido Paradigma Eclético de Internacionalização de empresas, desenvolvido por John Dunning nos anos 90: a China busca novos mercados e novas fontes de matéria prima de modo a garantir seu fornecimento de minério de ferro, petróleo, soja, proteína animal e terras raras, uma categoria de internacionalização que Dunning chamou de busca-por-recursos. A demanda das empresas chinesas criou a chamada “explosão das commodities” latino-americanas, que, como explicamos, surgiu através do comércio dos setores agrícolas e minerais com a China. A Figura 1 apresenta o montante de investimentos e contratos entre a China e alguns países da América Latina.

China Trade with LatAm

Figura 1: Investimentos chineses na América Latina, em Bilhões de US$, Fonte: American Enterprise Institute.

Uma aposta arriscada ou um risco calculado?

Embora a China lide com países razoavelmente arriscados, tanto politicamente quanto financeiramente, os investimentos chineses parecem ser bem avaliados por duas razões: os países da região precisam dos investimentos chineses para melhorar sua claudicante infraestrutura e a China é um importante destino para as commodities latino-americanas. Deste modo, uma decisão radical por parte dos países latinos é muito pouco provável. A Tabela 1 apresenta os principais destinos das exportações de vários países da América do Sul.

 Brazil Argentina Venezuela Peru Colombia Chile Ecuador
 China Brazil China China US China US
 US Chile India US China US Chile
 Argentina China Singapore Switzerland Spain Japan Peru
 Netherlands US Spain Canada Panama South Korea Colombia
 Japan Spain US Japan Venezuela Brazil Venezuela

Tabela 1: Principais destinos das exportações dos países latinos: Fontes: Globaledge (MSU) exceto Venezuela; Venezuela: Observatory of economic complexity

Em nosso próximo artigo discutiremos a sustentabilidade da estrategia chinesa e seu impacto no longo prazo.

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2 comentários sobre “Um dragão longe de casa: O aumento da influência chinesa na América Latina e as razões para a colaboração Sul-Sul

  1. Olá Gregório e obrigado pela pergunta. Na minha opinião o Brasil deveria abrir-se mais aos mercados internacionais. Somos um pais ainda muito fechado em relação ao comércio internacional e às cadeias globais de valor; alimentamos o sonho de que o Mercosul se tornará um bloco econômico de verdade e não mexemos em problemas estruturais tais como sistema tributário e infraestrutura. Ou seja, temos um dever de casa longo para ser feito. Abs, E.K.

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