Bancos de desenvolvimento na América Latina e Caribe

international_offshore_bankingA literatura moderna mostra que os bancos de desenvolvimento têm apoiado o desenvolvimento da América Latina e região do Caribe (LAC), uma parte do planeta com infraestrutura inadequada e mercados ineficientes. No entanto, estes bancos poderiam ser mais efetivos em seus papéis de desenvolvedores do mercado. Musacchio e Lazzarini (Reinventando o Capitalismo de Estado: Leviathan nos Negócios, no Brasil e Além) apresentam evidências de um grande banco de desenvolvimento – BNDES, banco de fomento brasileiro – que mostram que este tipo de instituição financeira causa impactos tanto positivos quanto negativos nos tomadores de empréstimos. Os bancos multilaterais auxiliam os governos e os setores privados quando promovem a transferência de conhecimento para os governos, quando divulgam as melhores práticas entre os recebedores de empréstimos e quando concedem créditos de baixo custo para os países da região. No entanto, a crítica aos bancos multilaterais incluem: i) existência de políticas de gestão de risco que limitam severamente o potencial de auxílio aos governos, e ii) preferência por empresas com boas conexões políticas.

O que dizer das diferenças entre as várias instituições multilaterais na região da América Latina e Caribe? Algumas de suas características estão expostas abaixo:

Banco Mundial: O Banco Mundial é uma fonte de assistência técnica e financeira aos países em desenvolvimento ao redor do mundo, não só aos da América Latina e Caribe e faz parte da Organização das Nações Unidas. Fornece empréstimos a juros reduzidos, créditos e subvenções para os países em desenvolvimento. Além dos produtos financeiros, a organização presta assessoria política, pesquisa e análise de problemas. Contudo, o Banco Mundial tem sido criticado tanto pelas condições impostas aos países devedores quanto pelo seu viés favorável ao modelo neoliberal de crescimento. Apesar das críticas, o Banco Mundial é uma das instituições financeiras mais bem-conceituadas do mundo. Por fim, seus padrões ambientais para avaliação do projeto se tornaram ponto de referência para avaliação de projetos em todo o mundo.

BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) é o segundo maior banco de fomento da América Latina, com US $ 303,3 bilhões em ativos e lucro líquido de US $ 3,2 Bilhões em 2014. Embora o banco apoie iniciativas sociais em educação, transporte público, sanitização e agricultura de médio porte, esta organização que é fortemente subsidiados pelo Tesouro Nacional, costuma financiar grupos industriais de grande escala. Por exemplo, 62% dos desembolsos de US$ 79 bilhões ocorridos em 2014 foram direcionados para grandes empresas (aquelas com faturamento acima de US$ 100 milhões). O BNDES é um agente importante no desenvolvimento industrial do Brasil, um país com desenvolvimento industrial tardio, porém a organização tem sido criticada por apoiar a expansão internacional de “campeões nacionais” em detrimento de auxiliar médias empresas. Ou seja, o banco tem favorecido grandes grupos privados que foram escolhidas a dedo pelo  Governo Federal para receber vultosas linhas de crédito subsidiado. 

BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) é uma instituição financeira voltada exclusivamente aos países da América Latina e do Caribe e é filiada à Organização dos Estados Americanos. O BID faz empréstimos aos governos dos seus países membros e possui status de credor preferencial, o que significa que os países devedores deverão pagar ao BID os empréstimos feitos por esta instituição antes de pagar demais obrigações a outros credores, tais como bancos comerciais tradicionais. De acordo com o seu próprio website, o BID não é apenas o maior e mais antigo banco de desenvolvimento na região mas também a principal fonte de financiamento multilateral para o desenvolvimento econômico, social e institucional na América Latina e no Caribe. O banco apoia governos, setor privado e empresas de pequeno e médio porte.

CAF (Corporação Andina de Fomento, Banco de Desenvolvimento da América Latina) foi criada para promover o desenvolvimento e a integração andina servindo aos setores público e privado. De acordo com o jornal Financial Times (link) o CAF financia mais projetos de infraestrutura na América Latina do que o Banco Mundial e do BID juntos, mas é acusado de opacidade e de baixos padrões de empréstimo.

CABEI (Banco Centro-Americano de Integração Econômica) é um banco de desenvolvimento cujos ativos totais somam US $ 8 bilhões e cujo foco é apoiar financeiramente seus países fundadores: Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica. Devido à sua alta concentração de carteira em apenas cinco países e a baixa qualidade creditícia de seus membros, o CABEI detém a segunda pior classificação de crédito dentre os bancos multilaterais da região.

FLAR (Fundo Latino-Americano de Reservas) e CDB (Banco de Desenvolvimento do Caribe) são os menores bancos de fomento na América Latina e Caribe. As duas organizações mantém forte posição de capital e ampla liquidez, para contrabalancear alguns de seus aspectos negativos: o alto risco de concentração de crédito e o risco embutido em sua carteiras. A fim de compreender as instituições multilaterais, a Figura 1 apresenta algumas de suas diferenças. O eixo horizontal mostra o retorno sobre ativos de cada instituição, o eixo vertical a razão entre o patrimônio liquido e os empréstimos realizados e o tamanho dos círculos mostra os ativos totais de cada banco de desenvolvimento.

Dev Banks 1

Figura 1: Comparação entre diversos bancos de desenvolvimento. Fonte: Autor

Como podemos ver no gráfico acima, o BNDES é mais rentável (em comparação ao seu total de ativos ) do que o BID e o Banco Mundial . Isso é explicado pelo fato de que os dois bancos multilaterais são mais avessos ao risco, ou seja, possuem melhor classificação de risco, do que o seu equivalente brasileiro, como mostrado na Tabela 1.

Bancos de desenvolvimento Avaliação Standard & Poors
IDB AAA
World Bank AA+
CDB AA
FLAR AA
CAF AA-
CABEI A
BNDES BBB-

Tabela 1: Classificação S&P para bancos de desenvolvimento na América Latina

bank-of-international-settlements-warns-against-further-loose-monetary-policy

Em relação às políticas de concessão de empréstimos, o BNDES desembolsou quase dezoito vezes o montante total emprestado pelo Banco Mundial e oito vezes a quantidade desembolsada pelo BID em 2014. Isso é explicado pela política agressiva de crédito utilizada pelo BNDES para apoiar as multinacionais brasileiras e a criação de “campeões nacionais”. A Figura 2 ilustra a comparação total de empréstimos dos bancos de fomento.

Development Bank 2

Figura 2: Desembolso total em 2014. Fonte: Autor

Concluindo, o debate atual sobre bancos multilaterais de desenvolvimento inclui os seguintes tópicos:

1. Impacto real versus potencial dos bancos no crescimento regional devido às condições impostas por essas organizações aos países devedores;

2. Viés a favor de teorias mais liberais, especialmente pelo Banco Mundial e BID, e

3. Concentração e favorecimento de empréstimo a empresas bem-conectadas politicamente, mais especificamente no caso do BNDES, que é chamado de “emprestador de primeira instância” e utilizado pelo governo brasileiro para apoiar campeões nacionais e o processo de internalização das multinacionais brasileiras

Pergunta final para as mentes mais curiosas: Como os bancos de desenvolvimento poderiam mitigar os riscos operacionais e de cambiais?

Fonte da imagem do globo aqui; fonte da imagem do banco aqui.

Referenciais:

  1. Center for Global Development:  Why Multilateral Development Bank Practices Are So Far from Their Potential
  2. Investors Relation websites: World Bank, IDB, BNDES, CAF, CABEI, CDB, FLAR
  3. Musacchio, A. Lazzarini S.G. Reinventing State Capitalism: Leviathan in Business, Brazil and Beyond (Harvard University Press, 2014)
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