Geopolítica comercial: Para onde o Brasil deve ir?

InternationalTrade

A ciência econômica nos ensina que os recursos são finitos. Portanto, priorização é o nome do jogo para as instituições, gestores e até mesmo países. Lourdes Casanova e Julian Kassum, no grande livro “A Economia Política de uma Potência Global Emergente – Em Busca do Sonho Brasileiro” abordam o debate ainda inacabado sobre as prioridades da política externa brasileira. Os autores argumentam que o Brasil precisa encontrar seu papel no cenário global. Quais regiões ou países nos quais o Brasil deveria concentrar seus esforços para aumentar o comércio e o investimento, a fim de deixar uma marca arena global ? Como Casanova e Kassum colocam claramente: “Para onde o Brasil deve ir?” As muitas opções geográficas incluem, mas não estão limitadas, aos Brasil seus vizinhos – América Latina, aos parceiros comerciais tradicionais – EUA e União Europeia, ao maior e mais recente parceiro comercial – China, a outros países do bloco dos BRICRússia e Índia, e a mais nova fronteira do comércio global – África. A Tabela 1 apresenta uma comparação breve, unilateral e inacabada dos prós e contras de cada opção. Como de costume, este autor gentilmente aceita quaisquer comentários e críticas.

Pros Cons
América Latina Tamanho da economia brasileira em comparação com as economias de outros países; longa história de comércio intraregional; fronteiras pacíficas Comércio intraregional decrescente  ao longo do tempo, crescente populismo na região; situação da Venezuela e Argentina
EUA Tamanho do mercado interno; EUA como uma fonte de tecnologia e inovação Existência de subsídios aos produtores locais de aço e etanol, entre outros itens
União Europeia Tamanho do mercado consumidor;  forte presença na América Latina de multinacionais provenientes da Alemanha, França, Itália, Espanha e Suécia Existência de subsídios para muitos produtos agrícolas
China Tamanho do mercado doméstico chinês Distância psíquica (CAGE) muito grande.
Outras economias BRIC – Rússia e China Tamanho do mercado consumidor Barreiras não-tarifárias, distância psíquica (CAGE) muito grande, agendas políticas distintas
Africa Nova fronteira de comércio internacional, Brazil poderá ser fonte de tecnologia e serviços de alto valor agregado(gestão de projetos e consultoria) Falta de conhecimento dos mercados locais, ambiente regulatório obscuro

Tabela 1: Opções geográficas para investimento e comércio internacional

A encruzilhada que o Brasil atualmente enfrenta não é incomum porque muitos outros países tiveram de tomar decisões difíceis no passado. Japão se tornou um país industrializado durante o último século porque reformulou sua política externa e Coreia do Sul é atualmente um país rico porque investiu pesadamente em educação. Está na hora do gigante latino de fazer escolhas. O Brasil precisa de um plano para melhorar a sua posição no mundo e uma estratégia que responda a uma pergunta crítica: Para onde o Brasil deve ir?

Brazil in Latam

Como de costume, deixo uma pergunta para os leitores deste blog: Você conhece algum outro país que sobreviveu a um cenário difícil e conseguiu ser bem sucedido depois de fazer escolhas difíceis?

Fonte da imagem “International Trade” aqui; fonte do mapa Brazil aqui

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Seis países latino-americanos e suas histórias contadas em nuvens.

Os artigos publicados em jornais importantes, tais como The Economist, Financial Times e The Wall Street Journal oferecem uma visão importante sobre assuntos atuais devido à relevância desses jornais e revistas. O que estes veículos de mídia tem escrito sobre a Argentina, Brasil, México, Chile, Venezuela, Colômbia e Chile? O modo tradicional de responder a esta questão é a leitura de grandes quantidades de textos, artigos, notas e referências bibliográficas.

Outro modo de identificar tópicos correntes em vastas quantidades de textos é através do uso de ferramentas que utilizam metadados, como por exemplo, a frequência de palavras usadas nos artigos. Uma destas ferramentas é chamada Word Cloud (muitas vezes também conhecida como Tag Cloud), que fornece uma “visão de helicóptero” dos principais temas em qualquer texto. Por exemplo, as nuvens dos artigos publicados na última semana de Julho ´14 nos veículos mencionados  são apresentados a seguir:

 Cloud Argentina Cloud Brazil Cloud Chile Cloud Colombia Cloud Mexico Cloud Venezuela

Figura 1 – “Word clouds”dos artigos no The Economist, Financial Times e The Wall Street Journal, na primeira semana de julho de 2014

 

Para avaliar a confiabilidade do instrumento, a Tabela 1 sintetiza as principais palavras apresentadas nas nuvens e as compara com os problemas atuais enfrentados pelos país citados.

Países Principais temas das nuvens de palavras Assuntos correntes sobre o país Confiabilidade da “nuvem de palavras”
Brasil Economy, Protest, Growth, Inflation, Rousseff. Economia brasileiras enfrenta baixo crescimento e inflação crescente; a taxa de aprovação de (Dilma) Rousseff decresceu devido aos protestos em 2013. Alta
México Oil, Reform, Energy, Gas Congresso Mexicano aprovou mudanças constitucionais que permitem investimento privado nos setores de energia e Petróleo & Gás Alta
Argentina Default, Bond, Holdout, Negotiation Novo “default” da Argentina afeta detentores de títulos da dívida argentina Alta
Venezuela Oil, Dollar, Maduro, Currency Venezuela, um importante exportador de petróleo, enfrenta uma crise monetária. (Nicolás) Maduro é o atual presidente Alta
Colômbia Growth, Farc, Medellín Farc é uma guerrilha patrocinada por barões da droga, que costumavam controlar parte de Medellín. Mediana. A análise de nuvens de palavras leva leitores a crer que atualmente o poder das Farc está aumentado, o que não é verdade devido ao esforço do governo colombiano em reduzir a violência.
Chile OECD, Copper Chile é um país membro da OECD e um importante exportador de cobre. Mediana. Embora ambos os fatos sejam verdadeiros a conexão entre eles é fraca.
Tabela 1 – Confiabilidade da nuvem de palavras para Brasil, México, Argentina, Venezuela, Colômbia and Chile

Como mostra a tabela, as “nuvens de palavras” podem ser uma ferramenta importante para ajudar os leitores a compreender os principais temas a partir de grandes quantidades de textos. No entanto, a ferramenta traz consigo algumas imprecisões porque a nuvem levar a falsa relação de causa e consequências. Em conclusão, a utilização de nuvem de palavras é uma técnica importante, mas ainda não está pronta para substituir totalmente o conhecimento aprofundado sobre um assunto.

Global Value Chains: empresas e países em busca de integração global

Durante uma pesquisa para uma palestra corporativa deparei-me com o tema Global Value Chains (GVC). Imaginei que já sabia o suficiente sobre o assunto, porém um choque de realidade ocorreu após ter lido o documento Global Value Chains : a Primer (Gary Gereffi e Karina Fernandez-Stark, CGGC Duke University). Neste texto de fácil compreensão, sem hermetismo acadêmico, os autores identificam quatro dimensões que caracterizam as cadeias globais de valor, a saber: os processos de transformação de matéria-prima em produtos finais, as considerações geográficas, a estrutura de governança e o contexto nas quais as GVCs estão baseadas.

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A primeira consideração a fazer é sobre a importância das cadeias globais de valor, que se tornaram mais complexas a partir do aumento do comércio global e da maior integração comercial entre países. Para muitos deles, especialmente os de rendas per capita mais baixas, a habilidade de se inserirem em GVC é uma condição vital para seus desenvolvimentos econômicos. Segundo os autores, “… a partir do momento em que pesquisadores e desenvolvedores de políticas públicas passaram a entender os pontos positivos e negativos da globalização, a ferramenta GVC ganhou importância na forma de lidar com a nova realidade da indústria, como a ascensão da China e Índia como novas forças motrizes do crescimento global…” (texto citado, página 3)

Neste artigo vou concentrar-me na discussão da governança das cadeias globais, ou seja, no modo que a cadeia é controlada e coordenada quando certos atores possuem mais poder que outros. Para os autores, governança significa a “a autoridade e relações de poder que determinam como os recursos financeiros, materiais e humanos são alocados e fluem dentro da cadeia”. Sabe-se que a governança de uma GVC é dependente de sua estrutura. Até o momento as pesquisas sobre os diversos tipos da cadeias globais identificaram cinco tipos de estruturas: Mercado, Modular, Relacional, Cativa e Hierarquia, que descrevo abaixo.

Tipo Características
Mercado Envolve transações relativamente simples, com informação e especificações de produtos são facilmente transmitidas e por isto requer pouca cooperação formal entre atores, que podem fazer e desfazer parcerias muito facilmente. O mecanismo central de governança é preço
Modular Ocorre quando transações complexas são fáceis de codificar. Tipicamente, fornecedores nesta situação fazem produtos dentro de especificações definidas pelo cliente. Relacionamentos são mais coesos do que no caso anterior. Tecnologia da Informação e padrões de troca de informação são críticos para estas cadeias funcionarem
Relacional Ocorre quando os atores se baseiam em informações complexas que não são facilmente transmitidas ou aprendidas, o que resulta em interações frequentes para troca de conhecimento entre as partes. Apesar de dependências mútuas, as empresas líderes ainda especificam o que é necessário e possuem habilidade para exercer algum nível de controle sobre os fornecedores
Cativa Neste tipo de cadeia os fornecedores são dependentes de um ou poucos compradores, que controlam poder. Tais redes apresentam alto grau de monitoramento e controle pela empresa lider
Hierarquia Este tipo de governança descreve cadeias caracterizadas por integração vertical e controle gerencial dentro de empresas que desenvolvem e fabricam seus próprios produtos.

A Figura 1 abaixo apresenta um esboço sobre cada tipo de cadeia de valor.

gvc

Figura 1: visualização de cada tipo de GVC

Os benefícios para os agentes que governam uma cadeia de valor são claros: maiores lucros e maior estabilidade. Antes de avançar na discussão sobre cadeias globais de valor gostaria de deixar algumas perguntas para os mais curiosos.

  1. Quais seriam os exemplos de cada uma destes tipos de cadeia. Por exemplo, a indústria automobilística é um bom exemplo de uma cadeia cativa. Existem outros?
  2. O que uma empresa precisa fazer para deixar uma posição de baixo poder/governança em uma cadeia e possuir maior controle sobre sua GVC?
  3. Qual seria um bom exemplo de aumento governança em uma cadeia?

Link para imagem dos países aqui

Link para imagem Global Value Chain aqui

Quem é Quem em Internacionalização: Prof. Afonso Fleury.

foto fleuryProfessor titular da Universidade de São Paulo. Graduação em Engenharia Naval e Oceânica (1970) pela Universidade de São Paulo, M.Sc. pela Stanford University (1975) e Ph.D. (1978) em Engenharia de Produção pela Universidade de São Paulo (USP). Dentre suas atribuições acadêmicas foi membro do Comitê Assessor do CNPq, CA-EP, no período 2003-2006 e chefe do Departamento de Engenharia de Produção (USP) nos períodos 1991-3, 1995-7, 2003-7. Desenvolve trabalhos nas áreas de Organização do Trabalho, Gestão da Tecnologia e da Engenharia, Gestão de Operações Globais e Internacionalização de Empresas. Na condição de Visiting Scholar trabalhou junto ao Institute of Development Studies da University of Sussex, Tokyo Institute of Technology, Laboratoire Territoire, Technologies et Societés da Ecole Nationale des Ponts et Chaussés e Institute for Manufacturing da University of Cambridge. Desenvolveu estudos e projetos para o International Labour Office, a United Nations University, para o PNUD/UNCTAD, entre outros. É Associate Editor do Journal of Manufacturing Technology Management, Regional Editor do Operations Management Research, e membro do Conselho Editorial de várias revistas brasileiras. Atualmente é Vice-President for Americas do POMS – Production and Operations Management Society.

Vamos continuar a série de entrevistas com pesquisadores cujas áreas de interesse envolvem o estudo de internacionalização de empresas. Desde já agradecemos a disponibilidade do Prof. Fleury em responder algumas perguntas sobre estratégia de empresas multinacionais brasileiras e seus processos de expansão internacional.

  1. Em que sentido as multinacionais brasileiras são diferentes de multinacionais de outros países?

As diferenças são marcantes. Enquanto no Brasil as empresas possuem pouco apoio institucional vindo do governo federal, na China a internacionalização de empresas faz parte de uma política de Estado chamada “Going Global”, que estimula as firmas a expandirem-se em mercados internacionais. Deste modo, a internacionalização de empresas chinesas passa a ser para, o governo chinês, uma estratégia de inserção mundial do país. Note que isto é diferente da política brasileira de financiamento a juros subsidiados e de escolha de “campeões nacionais” que temos visto no Brasil há alguns anos.

Em relação às empresas indianas, percebemos que elas já possuem mentalidade internacionalizada há muito tempo. As relações empresariais estabelecidas desde o período da colonização britânica geraram facilidade de internacionalização. Por exemplo, o grupo Tata possui um escritório em Londres desde 1904.

Outra diferença que impacta as multinacionais da Índia e da China é que estes países possuem projetos de desenvolvimento de tecnologia ligados à defesa nacional, o que causa transferência vertical de tecnologia e consequente espalhamento de capacitação tecnológica para outras empresas.

Por fim, percebemos uma questão cultural ligada ao nível de agressividade empreendedora do empresário brasileiro, que é muito tímido quando comparado com empresários chineses ou indianos. Enquanto os executivos indianos e chineses buscam mais inovação e expansão internacional de seus negócios, o executivo nacional, fora honrosas exceções, parece mais conservador. Falta ao executivo nacional o “espírito animal” descrito por Schumpeter.

  1. Quais os tópicos emergentes em internacionalização de multinacionais brasileiras?

Acredito que os principais tópicos que influenciarão as agendas das multinacionais, tanto de países emergentes quanto de países mais desenvolvidos, são a preocupação com práticas éticas ligadas à atuação das multinacionais em mercados externos e o apoio institucional de governos aos processos de internacionalização de empresas de seus países, como vimos na resposta anterior. Atualmente no Brasil existem investigações sobre casos de corrupção envolvendo multinacionais. As grandes empresas deverão, cada vez mais, se preocupar com os processos internos em suas subsidiárias.

Por fim, o desenvolvimento de negócios simultaneamente sustentáveis e economicamente viáveis também será um tema que impactará todas as empresas, sejam multinacionais ou não, sejam de países emergentes ou de países mais industrializados.

  1. Em função do baixo crescimento mundial o Sr. acha que existe o risco de o processo de internacionalizacao de multinacionais brasileiras desacelerar, ou mesmo reverter?

Acredito que não. Creio que a maioria das grandes empresas brasileiras que deveriam se internacionalizar já o fizeram e, deste modo, o número empresas multinacionais brasileiras tende a se estabilizar. Por outro lado, creio que cada vez mais veremos pequenas e médias empresas brasileiras (PME)  internacionalizadas, seja em busca por competências e/ou novos mercados.

  1. Quais são suas pesquisas atuais?

Estamos desenvolvendo alguns trabalhos interessantes. Com a universidade de Manchester estamos trabalhando em torno do assunto regulação do trabalho em empresas multinacionais e por enquanto chamamos este trabalho de Rising Power. Estamos também com uma linha de pesquisa com a universidade de Cambridge, onde investigamos modelos de gestão de operações internacionais. Por fim, investigamos os efeitos de transbordamento de tecnologias (spillover effects), entre Brasil e China. Pensa-se que estes efeitos de transbordamento são automáticos, porém na verdade isto não ocorre. Por exemplo, algumas empresas realizam investimento externo direto (foreign direct investment) em mercados emergentes, porém percebemos que o efeito de transbordamento não ocorre. Percebemos que é necessária uma ação governamental para criar condições ou regulações de modo que este transbordamento ocorra.

Prezado Prof. Fleury, paramos por aqui esta breve conversa. Gostaria de agradecer as tuas palavras e o tempo propiciado aos leitores deste blogue. Até breve.

Pequenas, porém atrevidas: internacionalização de pequenas e médias empresas (PME)

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Qual a relação entre o grau de internacionalização de uma empresa, o desenvolvimento de competências e seu desempenhos financeiro? Se esta é uma pergunta difícil de ser respondida para as grandes empresas – que possuem muitas informações disponíveis -, para organizações menores – que possuem poucas informações abertas ao público -, esta mesma pergunta possui complexidade muito maior. A professora Dinora Floriani, em sua tese de doutorado publicada em 2010, procurou identificar a relação entre o grau de internacionalização de pequenas e médias empresas (PME) com seus resultados financeiros e operacionais.  Através de abordagens qualitativas e quantitativas, a pesquisadora avaliou informações de 114 empresas brasileiras que eram tanto internacionalizadas quanto PMEs. Após análise dos resultados obtidos, Floriani concluiu que:

  1. Há uma relação forte entre o aumento do grau de internacionalização com o desenvolvimento de novas competências;
  2. Há uma relação fraca entre o aumento do grau de internacionalização com aumento de desempenho financeiro e operacional.

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Além de suas conclusões de seu trabalho, o material desenvolvido pela pesquisadora chama a atenção devido à sua ótima explicação sobre as teorias de internacionalização de empresas. O texto descreve os principais modelos de internacionalização: a abordagem baseada em decisões econômicas, desenvolvida por autores tais como Williamson, Hymer, Porter, Dunning e Penrose; e a abordagem baseada em evolução comportamental, também chamada de Escola Nórdica ou modelo de Uppsala, desenvolvida por pesquisadores tais como Johanson, Wiedersheim-Paul e Vahlne.

Como conclusão de seu trabalho, Floriani deixou claro que internacionalização impacta positivamente as características soft das pequenas e médias empresas: conhecimento (tanto tácito quanto explícito) e suas competências organizacionais. Ou seja, este fato nos permite concluir que existe algum tipo de transferência de conhecimentos entre matriz e subsidiária. Floriani mostra também que ainda existe espaço para trabalhos acadêmicos que procurem estudar a relação entre internacionalização de uma empresa, seja ela PME ou uma grande organização, e suas características hard, tais como lucratividade e desempenho operacional.

Como de costume termino este post com mais uma pergunta provocativa:

As empresas se internacionalizam porque possuem as competências para tal movimento estratégico ou buscam mercados externos para desenvolver as competências que lhes faltam?

Links para imagens: boneco escalando gráfico aqui; figura do globo aqui.

 

Pesquisa & Desenvolvimento em multinacionais: comparação entre empresas brasileiras e de outros países.

grafico de colunasOs executivos de multinacionais frequentemente perguntam sobre o processo de internacionalização de pesquisa e desenvolvimento de empresas brasileiras. A pergunta, de modo mais explícito, é a seguinte: Em se tratando de pesquisa e desenvolvimento, em que estágio estão as multinacionais brasileiras quando comparadas às de países mais industrializados? Os professores Simone Galina e Paulo Moura responderam esta questão através do artigo Internationalization of R&D by Brazilian Multinational Companies, quando estudaram o estágio de maturidade de algumas empresas multinacionais brasileiras tais como Gerdau, Marcopolo, Smar e Tigre, entre outras. O trabalho, publicado na International Business Review em 2013, teve como objetivo a verificar as três proposições abaixo:

  1. As empresas multinacionais brasileiras – EMB – desenvolvem P&D em outros países;
  2. Os motivos que levam as EMB a desenvolver P&D em outros países;
  3. Empresas brasileiras expandem internacionalmente as atividades de P&D de modo similar às multinacionais de países mais industrializados:

Em relação ao primeiro tópico os autores confirmaram que em várias empresas brasileiras a atividade de pesquisa é internacionalizada, porém a porção internacional de P&D é muito pequena quando comparada com a pesquisa total desenvolvido por estas organizações.

No segundo tópico, os autores confirmaram que empresas brasileiras expandem P&D devido aos mesmos motivos que as multinacionais de outros países, ou seja, procuram adaptar e desenvolver produto de modo a atender às necessidades locais dos mercados internacionais, sejam elas mercadológicas, tecnológicas ou regulatórias. Adicionalmente, os autores identificaram os principais fatores e forças motrizes para as multinacionais brasileiras, que estão apresentados na Tabela 1.

Forças-motrizes para internacionalização Principais fatores para internacionalização de P&D em multinacionais brasileiras
Dirigidas pelo mercado Monitoramento (corporativo) das necessidades dos clientes
Adaptação para satisfazer requerimentos locais
Atendimento de padrões locais/regionais ou certificações
Respostas aos nichos de mercado locais específicos
Dirigidas pela tecnologia Acesso à tecnologia através de cadeia de suprimento
Busca por mão-de-obra qualificada
Aquisição de companhias estrangeiras com competências tecnológicas
Tabela 1 – principais fatores para internacionalização de multinacionais brasileiras

Por fim, em relação à terceira proposição, Galina e Moura confirmaram que empresas brasileiras expandem P&D globalmente de modo similar às multinacionais de países mais industrializados. Deixarei os detalhes desta terceira proposição para um post especifico sobre este tema.

A importância do trabalho de Galina e Moura se deve ao fato de que os autores buscaram comparar os processos de internacionalização de P&D entre multinacionais brasileiras e de países mais industrializados através da ótica de forças-motrizes. Esta visão completa a dos post anteriores discutidos neste blog, que focalizaram as estruturas globais de P&D (post aqui) e competências organizacionais para internacionalização da inovação (post aqui).

tubos de ensaio 

Conclusões do artigo

Os três últimos artigos analisados neste blog convergem para o estudo de pesquisa, desenvolvimento e inovação em multinacionais, ainda que cada um deles possua um enfoque específico. Enquanto Chiesa (aqui) estuda internacionalização de P&D em empresas multinacionais intensivas em tecnologia e de países mais industrializados, Fleury & Fleury e Galina & Moura possuem como área de interesse comum o estudo mais específico de internacionalização de P&D e inovação em empresas multinacionais brasileiras. A Figura 1 apresenta graficamente as áreas de interface teórica-conceitual de cada artigo.

tres circulos

Figura 1 – Ligação conceitual dos artigos apresentados neste blog.

Deixo aqui duas perguntas para os leitores mais curiosos:

  1. Qual seria a empresa brasileira mais internacionalizada?
  2. Qual seria a empresa brasileiras que mais investe em P&D, proporcionalmente à sua receita?

Fonte da imagem do gráfico de colunas aqui, fonte da imagem dos tubos de ensaio aqui,

Referências Bibliográficas

CHIESA, V. Global R&D Project Management and Organization: A Taxonomy. Journal of Production Innovation Management.v. 17, n. 5, p341–359, 2000.

FLEURY, A.C.C., FLEURY, M.T.L, BORINI, F.M. The Brazilian Multinational´s Approaches to Innovation.Journal of International Management.v.19 p260-275, 2013.

FLEURY, A.C.C & FLEURY, M.T.L.Brazilian Multinationals – Competences for Internationalization.1 ed. Cambridge, Cambridge University Press, 2011

GALINA, S. V.R., MOURA, P.G.D, Internationalization of R&D by Brazilian Multinational Companies.International Business Research; v.6, n8; 2013

 

Inovação em multinacionais brasileiras

innovation phraseUm dos artigos lidos recentemente que mais me interessou foi o The Brazilian Multinational´s Approaches to Innovation, escrito pelos professores Afonso e Maria Tereza Fleury e publicado recentemente no importante Journal of International Management. Os autores analisaram o padrão de inovação apresentado por multinacionais brasileiras e compararam-no ao de empresas multinacionais de países mais industrializados. O artigo conclui que, em alguns casos, existem influências causadas por mercados e instituições locais que exercem impacto nas competências e estratégias das empresas multinacionais brasileiras. Em suas pesquisas, os autores identificaram os tipos de inovação que proporcionam competitividade às multinacionais brasileiras, as capacidades que elas desenvolveram para iniciar suas estratégias de internacionalização e os efeitos de país de origem (country-of-origin effects) na formação de competências e capacidades organizacionais.

images (12)O casal Fleury identificou, por exemplo, que empresas baseadas em recursos naturais (commodities) procuraram desenvolver conhecimentos e boas-práticas gerenciais em engenharia de processos de modo a enfrentar a competição global. De mesmo modo, estas organizações precisaram desenvolver e inovar em aspectos administrativos e engenharia financeira porque as principais empresas deste setor são organizações expostas a redes logísticas complexas e riscos financeiros devido ao fato de operarem em mercados globais. De acordo com o modelo desenvolvido por Michael Porter (ver post aqui), estas empresas multinacionais brasileiras procuram liderança em (baixo) custo. 

mineração

Por outro lado, multinacionais brasileiras que não lidam com recursos naturais se desenvolveram em operações e tecnologia com o objetivo de produzir e comercializar produtos e serviços de modo diferente, o que é um exemplo de estratégia de diferenciação

procution plant

A Tabela 1 apresenta as principais conclusões dos autores

Cluster Competências Capacidade inovadora em Tipos de inovação Estereótipo
# 1 Administrativa (organizacional), operações e tecnologia. Desenvolvimento de modelos de negócios Novos modos de produzir e comercializar produtos e serviços Multinacionais brasileiras de 1ª linha não relacionadas a recursos naturais
# 2 Projeto de produto, relacionamento com clientes e operações. Customização de produtos e serviços para nichos de mercado Novos produtos para nichos de mercado Multinacionais brasileiras que exploram nichos de mercado no exterior
# 3 Tecnologia e marketing (relacionamento com clientes) Desenvolvimento de produtos demandados pelas cadeias globais de valor Novos produtos apropriados para as firmas compradoras em cadeias globais de valor Multinacionais brasileiras envolvidas nas cadeias globais de valor
#4 Administrativo (especialmente finanças) e tecnologia (engenharia de processo) Inovações radicais em engenharia de processo para competir em mercados de commodities Produção de commodities a preços mais baixos de modo sustentável Multinacionais de 1ª linha dos setores baseados em recursos naturais
Tabela 1 – Competências, capacidades e inovação em multinacionais brasileiras. Fleury & Fleury (2013)

Uma das limitações do trabalho, declarada pelos próprios autores, é o desconhecimento sobre a relação de causa versus consequência entre o processo de internacionalização e inovação: o desenvolvimento de capacidades inovadoras pode começar antes ou depois do processo de internacionalização, ou até mesmo não possuir relação com o processo de internacionalização das multinacionais brasileiras.

 Como de costume, seguem as tradicionais perguntas para os leitores mais curiosos::

  1. Quais outros tipos de efeitos de país-de-origem podem impactar as empresas  multinacionais brasileiras?
  2. As empresas multinacionais brasileiras são mais inovadoras porque se tornaram multinacionais ou vice-versa?

Link para imagem da linha de produção aqui; da mineração aqui, para imagem Innovation aqui; link imagem globo aqui.

Referências Bibliográficas:

FLEURY, A.C.C., FLEURY, M.T.L, BORINI, F.M. The Brazilian Multinational´s Approaches to Innovation. Journal of International Management. v.19 p260-275, 2013.